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Tá tendo Copa

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Torcer, no dicionário, demonstrar com entusiasmo, gesticulando e gritando, o desejo de que vença o clube ou equipe de sua simpatia. Em junho de 2013, milhares de pessoas em diversas cidades do país foram para as ruas torcendo, não por um time, e sim por melhores condições de vida. Reivindicações essas que expuseram uma série de fragilidades da construção social do Brasil, principalmente o abuso de poder e a violência excessiva da polícia militar. O país parou e virou cenário do maior levante popular desde o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello, no ano de 1992. Foi nesse contexto social, que surgiu o grito de “Não vai ter Copa”.

Christophe Simon | AFP

Christophe Simon | AFP

Em um manifesto, coletivos e movimentos sociais afirmaram que sem a consolidação dos direitos básicos (saúde, educação, moradia, transporte entre tantos outros) não haveria possibilidade de o povo brasileiro admitir megaeventos como a Copa do Mundo ou as Olimpíadas. Assim, as ruas, ferventes, continuaram sendo tomadas pelo povo. Foram meses de passeatas, atos, confrontos, prisões, mas não deu para não ter: a Copa começou, com suas tensões, suas mazelas, mas também com sua força e sua beleza.

Em um manifesto, coletivos e movimentos sociais afirmaram que sem a consolidação dos direitos básicos (saúde, educação, moradia, transporte entre tantos outros) não haveria possibilidade de o povo brasileiro admitir megaeventos como a Copa do Mundo ou as Olimpíadas. Assim, as ruas, ferventes, continuaram sendo tomadas pelo povo. Foram meses de passeatas, atos, confrontos, prisões, mas não deu para não ter: a Copa começou, com suas tensões, suas mazelas, mas também com sua força e sua beleza.

Essa Copa, talvez mais do que todas, é a Copa da imagem compartilhada. Nos estádios, os torcedores já fizeram cerca de 7,6 milhões de transferências de dados, o que equivale ao envio de mais de sete milhões de fotografias, segundo o Sindicato Nacional das Empresas de Telefonia e de Serviço Móvel Celular e Pessoal (SindiTelebrasil). Estamos não só vivendo uma Copa do Mundo, como estamos, principalmente, registrando tudo, o tempo todo.

Mas a Copa vibra e pulsa além dos estádios e é feita não apenas de futebol. É justamente nessa perspectiva do que há “além” que alguns projetos fotográficos abordam narrativas mais livres dos padrões do verde e amarelo. Destacamos aqui dois desses trabalhos: Offside Brazil, da agência Magnum Photos e o Jogo Bonito, organizado pela Mídia NINJA e pelo coletivo argentino MAFIA.

Offside Brazil, é um projeto da Magnum Photos, que tem curadoria de Daria Birang e apoio do Save the Dream, Instituto Moreira Salles e ESPN. O projeto reúne um time de 4 fotógrafos da agência, (Alex Majoli, David Alan Harvey, Jonas Bendiksen, Susan Meisela) e 6 fotógrafos e coletivos brasileiros (André Veiga, Bárbara WagnerBreno RotatoriColetivo GarapaMídia Ninja e Pio Figueiroa) para retratar o lado B da Copa, olhares heterogêneos para além dos holofotes da mídia tradicional, como as manifestações e questões antropológicas e culturais.

No tumblr do projeto encontramos várias abordagens sobre uma mesma Copa. O coletivo Garapa, por exemplo, vem trabalhando a Zona de Exclusão da Fifa, um território governado pela organização suíça, um país dentro de um país, de fronteiras de linhas imaginárias, onde a Fifa tem absoluto poder executivo e legislativo. A Garapa então passou a abordar o funcionamento desse território, andando pela linha invisível e fotografando sua vida cotidiana e as mudanças em dias de jogos, em uma espécie de mapeamento e georeferenciamento desse espaço. O ensaio que vem sendo desenvolvido alternadamente em Porto Alegre e São Paulo, trabalha as imagens em trípticos dando a dimensão da linha e de continuidade dessa fronteira.

Garapa pro Offside Brazil

Garapa pro Offside Brazil

Jonas Bendiksen, por sua vez, incorpora ao projeto a imagem não estática em pequenos frames em super slow motion. São expressões, cenas, detalhes do que está sendo vivido nas ruas, nas casas, que aproximam o espectador do contexto, quase como se um não existisse sem o outro. A máxima de que imagens passam a existir quando são vistas e reverberam no outro também ecoa no trabalho da Mídia Ninja, onde a fotografia é denúncia, é ato político, potência transformadora. Eles trazem as tensões das lutas e contrastes sociais para o Offside e vibram com a participação em um projeto de tamanha dimensão, em parceria com uma Agência historicamente composta pelas principais referências fotográficas da grande maioria dos Ninjas. Um projeto que possibilita o diálogo entre as tantas vertentes da fotografia e projeta os novos meios e caminhos alternativos do fotojornalismo da Mídia Ninja, assim como já foi a participação do coletivo na exposição Poder Provisório, com curadoria de Eder Chiodetto, no MAM.

Pio Figueiroa traz ao Offside um olhar sobre um fenômeno recente na periferia paulistana, o Funk Ostentação, relacionando esse movimento com a recente ascensão da classe trabalhadora no Brasil. São retratos fortes, densos de uma juventude buscando auto afirmação na forma como se colocam na, e principalmente, para a sociedade. “A acessibilidade à internet dá a esses jovens poder de uma mobilização configurada, em grande medida, por códigos de consumo. Isso é sintomático de que, acredito, apesar de ter havido uma emancipação social no país, fica aparente a questão do quanto isto se deu quase que exclusivamente pela via do consumo o que gera uma certa confusão sobre o que significa ser cidadão e o que significa ser consumidor”, nos conta Pio.

Funk Ostentação | Pio Figueiroa pro OffsideBrasil

Funk Ostentação | Pio Figueiroa pro OffsideBrasil

São histórias que crescem, viram imagens, potencializam discursos e geram mais e mais histórias de várias perspecitivas e pontos de vista.

Já o projeto Jogo Bonito, ligado a Rede Latino-Americana de Comunicação, reúne coletivos de fotografia de todo mundo em uma cobertura que mistura o olhar das pessoas que acompanham a copa através das transmissões televisivas e os temas que ficam fora do foco das grandes mídias tradicionais. A proposta do projeto é mostrar esse paradoxo pelo contraste direto de fotografias em dípticos, uma narrativa visual que vitaliza e mostra um lado diferente do hegemônico que prioriza a Copa apenas como fonte de alegria e progresso. A divergência é o forte do Jogo Bonito: a festa lado a lado com a miséria; o luxo lado a lado com a violência. O resultado é um trabalho de bastante força expressiva e questionadora, de criação conjunta de uma narrativa que fortalece o olhar da fotografia latino-americana.

Mídia Ninja e Ruido Photo pro Jogo Bonito

Mídia Ninja e Ruido Photo pro Jogo Bonito

Conversamos um pouquinho com Rafael Vilela, do Mídia Ninja, que nos explicou um pouco como está sendo o processo criativo e de concepção do Jogo Bonito:

Os coletivos de fora do Brasil estão muito focados nessa relação dos torcedores com a tv, de como a copa do mundo chega nos outros países. Aqui no Brasil a gente está mais organicamente cobrindo a rua, o dia a dia, as questões mais sensíveis das tensões sociais. A soma desses dois pólos é a essência do Jogo Bonito, a edição está muito em cima desses dois mundos, aparentemente distintos, mas que se encontram o tempo todo”.

MAFIA e Mídia Ninja pro Jogo Bonito

MAFIA e Mídia Ninja pro Jogo Bonito

O projeto é colaborativo e aberto para coletivos de todo o mundo que queiram participar e já conta com a participação dos coletivos RUIDO Photo (España), SubCoop (Argentina), Terra (Italia), revelArte (Uruguay), En la Vuelta (Argentina), Arte al Ataque (Argentina), Crónicas Visuales (Argentia), Nitro Imagens (Brasil), Apacheta Fotos (Argentina), Mídia Capoeira (Brasil) e Limafotolibre Colectivo (Perú). Interessados devem escrever para jjogobonitomundial@gmail.com.

Tá tendo Copa, e os olhares do mundo estão se voltando para além das barreiras dos gramados e arquibancadas. De alguma forma, já somos vencedores, pois estamos tendo a possibilidade de debater e de expor uma série de questões sociais e culturais que muitas vezes são jogadas para escanteio.

Estelita | Bárbara Wagner pro Offside Brazil

Estelita | Bárbara Wagner pro Offside Brazil

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