Sobre o 7

Olhar o presente além das margens
Por José Afonso Jr. | Professor, pesquisador e fotógrafo. Trabalha na UFPE.

Vamos combinar: existe um problema no que se escreve e se lê sobre fotografia.

Normalmente, o exercício da crítica e reflexão é como pêndulo que oscila entre a arqueologia e a crônica. Em outras palavras, na extremidade arqueológica busca-se a segurança de referenciais históricos, já acomodados, assentados e de quase senso comum. No outro limite, o da crônica, prevalece um engajamento, quase militância, que procura a afirmação de um conjunto de valores estéticos, de procedimentos, ou ainda de sintonia com a atualidade. Esta posição procura indicar trabalhos de modo a buscar uma legitimação capaz de gerar destaque, ou um particular dentre o pano de fundo geral. Daí, o esforço subsequente envolve transportar o particular da crônica para a arqueologia.

É uma crítica possível da qual poucos escapam. Mas há esperanças.

Para não generalizar, obviamente, temos que indicar as exceções. No Brasil, os blogs Icônica, Olhavê, Dobras Visuais e o 7 Fotografia são como oásis em meio ao deserto.

Sem pretensão de verdade, a dificuldade reside em olhar o fluxo dos eventos da fotografia enquanto eles se deflagram. Da margem, se vê o rio, mas não o seu interior, as tensões, volumes e movimentos que acontecem debaixo da linha d’água, do visível, do aparente.

O desafio, portanto, fugindo da tentação de uma escrita arqueológica, propõe fugir de um olhar sobre a fotografia que remonta a seus inícios, convenções, estéticas e nomes consagrados e termina em algum lugar que, invariavelmente, influencia, ou por adoção arbitrária, ou por exercício de crônica, os regimes de visualização e produção da fotografia contemporânea. Qualquer leitor desconfiado e mais crítico, pode perceber que este modelo pressupõe o esquecimento daquilo que não está submetido à tutela ou perspectiva de um arqueólogo ou cronista da imagem. Ao se olhar o rio, se esquece do óbvio: as margens.

O cenário que envolve olhar as margens e não somente a partir delas, vive um momento de ebulição, onde tão importante sobre o que e como se olha, é quem e de que modo se articula essa perspectiva. Pensar o 7 Fotografia como um coletivo fotográfico, algo tão em moda, diga-se de passagem, aos dias atuais, é um viés tão limitado quanto olhar para o grupo apenas como um esforço gregário de pensamento. Sem maiores pretensões de afirmação, o que está em jogo no trabalho do 7 é justamente destensionar os limites entre o fazer e pensar, entre teorizar e praticar. Encontrar a matéria prima na difícil tarefa de olhar não para, mas sobre o presente. Praticar a teoria e teorizar a prática.

O esforço de Priscila, Isabella, Maíra, Joana, sem esquecer de Ana e Val, que não integram mais o grupo, mas alimentaram sua colaboração, é precisamente detectar os falsos extremos da teoria e da prática como opostos e separados. São, defendo, os elementos e exemplos capazes de condensar tanto a inquietude do campo da fotografia, como da cultura e do tempo que a envove. Atuar como um Exu/Hermes, capaz de abrir caminhos para o rio, ao passo que, se isso pode ser feito, envolve perceber as margens não como limites, e sim como método.

É certo que a abertura de caminhos entre o pensar/ fazer fotografia considera esta não somente como uma prática visual, mas uma disciplina contemporânea autônoma, que dialoga com seu baú histórico e com outros campos e saberes. “Outros campos”, em um esforço de iluminar a questão, é justamente a parte interessante da fotografia atual, por onde se apertam os botões das respostas. Por onde se avança e se emancipa o percurso para além do seu contexto. Desmontar a caixa-preta de Flusser, assimilar a câmera de Pandora de Fontcuberta. Qual o lugar da fotografia, então? O mesmo lugar do rio, quando o seu curso não lhe é suficiente: o da inundação, do transbordo, da enchente.

Esses deslocamentos e contaminações propõem outro desafio que é mapear os distintos marcos culturais e ideológicos, estéticos e autorais, formais e de conteúdo que envolvem a fotografia.

Trata-se de um prolongamento que remonta aos anos 1970, que representam a institucionalização da fotografia como campo acadêmico e de mercado. Justamente, a aproximação entre prática e teoria através de uma crítica que transita entre esses dois mundos. É certo que a fotografia antes disso já habitava os museus. No entanto, a sua aceitação nas estruturas canonizadas do saber e da cultura implica uma dinamização da mesma como objeto artístico, logo, de mercado; logo, de tensão entre representação e produção de sentido.

Esse deslocamento sofre uma violenta sacudida nos anos 2000, onde a lógica de ver/ produzir em redes se posiciona como elemento da cultura. Na produção crítica e acadêmica da fotografia (seria quase a mesma coisa?), o conhecimento e as perspectivas arqueológicas da mesma são postas em questão na forma como interpretavam o passado, ou torturavam-no, de modo a que ele coubesse no presente. Com as redes, a internet, a troca de informação de todos a todos, outras histórias emanam. Inclusive sobre o presente, habitando-o de modo justaposto ao discurso canonizado, não se alinhando a um debate histórico que instrumentaliza fatos, ou ainda, sobre crônicas com interesses não confessados ou sem clareza.

O 7 fotografia provém desse contexto. É filho de seis mães, do vínculo com a imagem, da cultura de redes, do vertiginoso conjunto de mudanças que assistimos, sobre a qual atuamos, mas não temos controle. Que somos, ao mesmo tempo, vítimas, pelos impactos que não avisam quando chegam; e algozes, pelas críticas adotadas sem o entendimento profundo e necessário dos movimentos ao redor.

Todo esse conjunto tem deslocado a gênese e a natureza da imagem fotográfica a um ponto onde até mesmo a incerteza do percurso desta ou daquela prática é legítima. Assim, talvez, se possa evitar o sucumbir diante de uma perspectiva arqueológica e mumificada, ou de crônica das aparências. Explicitar os caminhos, os contextos, os acasos, os movimentos vacilantes e também os acertos será a solução?

O 7 fotografia se alinha à leveza e rapidez das práticas e suportes da fotografia atuais. Esta mesma que opera mais rupturas que continuidades, que acentua as fraturas entre imagem e suporte, entre informação e objeto. D’outra forma: uma fotografia e sua consoante reflexão crítica que se colocam ora bloqueando o seu acesso a antigos territórios de conforto, ora impulsionando a exploração de limites apagados entre fronteiras. Para falar de uma roupa que veste o presente, vestir-se como tal. Em Roma, como os romanos, diz o ditado. Porém com a clareza que só no presente é que vivemos o passado e podemos voltar as luzes para o futuro, este cada vez mais avizinhado ao nosso tempo.
Percorrer, observar esse caldo seja talvez o rumo onde teremos condições de superar com tranqüilidade as perspectivas diicotômicas e engessadas sobre a fotografia. Penso o 7 como um dos destes exercícios. Que, ao desenhar o mapa entre o rumo e incertezas do percurso nos convida à uma aventura/ peripécia: a terceira margem do rio.

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