Autografia

Renan Teles

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Voltamos esta semana com um Autografia que tenta decifrar um pouco e entender a fotografia de Renan Teles. Antes de responder às nossas perguntinhas mágicas, Teles nos presenteou com um prefácio bastante pertinente:

Antes preciso deixar claro que sempre vejo a fotografia como mídia artística, ou seja, falo dela como se falássemos sobre pintura, onde imediatamente remeteríamos à arte (e não à pintura como ato generalizado como a de um pintor de paredes). Sendo assim, poderíamos até dizer que toda fotografia é da melhor ou da pior obra de arte. Esse pensamento, porém, parece confundir muita gente. Não existe uma escala que parte de uma má fotografia, até uma boa fotografia, sendo uma fotografia excelente automaticamente considerada obra de arte. Para uma fotografia introduzir-se no meio artístico ela deve ser mais do que uma imagem, ela deve aprofundar discussões. Como dizem, uma obra de arte é tão interessante quanto o maior número de discussões que ela pode trazer. A simples e desacompanhada excelência técnica, beleza extrema, ou algo muito curioso não fará por si só uma fotografia se tornar obra de arte.

Para uma boa discussão essas duas perguntas funcionam muito bem, pois da mesma forma que aproximam o gostar do fazer, também os separam. Muito já me intriguei, me enfezei, me revoltei e resolvi pensando sobre fotografar e gostar de fotografar. Todos já percebemos que uma pessoa com uma câmera na mão pode tornar-se da mais introspectiva à mais abobada. E isso significa que entre gostar de fotografar e gostar de fotografia há uma distância enorme. Hoje eu prefiro fotografia do que fotografar. E recentemente notei que prefiro imprimir (uma fotografia) do que fotografar.

Renan Teles

Renan Teles

O que você fotografa?

Eu não acho que sei com exatidão o que é que eu fotografo. Talvez eu saiba um pouco sobre minhas tentativas ou intenções de fotografar algo. E que em cada projeto eu procuro fotografar cada vez mais de perto essa intenção. No projeto Webcasting/LiveStreaming, onde fotografei pessoas se expondo na internet, eu tentei fotografar através da webcam da própria pessoa para invadir a casa e intimidade desse alguém que eu não conheço, não me conhece, e não imagina que eu esteja ali. A tentativa foi de invadir um pouco mais a privacidade de alguém que já a escancarava, e ao mesmo tempo tentar decifrar uma mudança comportamental que vem acontecendo exatamente por causa da fotografia. Mas para fazer isso eu precisava fotografar o interior da própria fotografia, intencionalmente ou não remetendo à caixa preta de Flusser, algo que me instigou bastante durante a leitura – Filosofia da Caixa Preta é um livro de Vilém Flusser muito recomendado a fotógrafos. Sendo assim, no projeto seguinte, Estudos para jato de tinta, abri de certa forma mão de um estudo social ao fotografar apenas a fotografia, e assim tentar dela decifrar um pouco mais. E alguns resultados relacionado à essa compreensão da fotografia já estão surgindo. Hoje posso afirmar sobre a fotografia digital, entre outras coisas, o seguinte: sua maior qualidade é sua infinita capacidade de multiplicação e disseminação através da internet, o que faz com que ela perca, para muitos, todo o seu valor quando impressa – e isso por isso para mim é tão estimulante a impressão, pois sua leitura é desatada aos valores da fotografia que vemos diariamente na web. Outra constatação é que, sendo assim, a fotografia não é mais luz, é dados. E como objeto artístico, ao ser impressa a fotografia é tinta. Claro que não me refiro à fotografia analógica, mas mesmo muitas delas acabam por virar tinta como resultado final. E, nessas circunstâncias, a fotografia que se relaciona mais com dados numéricos e tinta do que com a luz deve ser pensada diferentemente a partir de então. Pensando na fotografia como tinta cheguei aos resultados pictóricos no projeto Webcasting. E agora, nesse novo projeto Estudos para jato de tinta, passo a pensar a fotografia digital como uma forma de captação de dados e coordenadas para uma impressora jato de tinta. A fotografia que não seria luz seria apenas dialeto digital entre um periférico e outro na construção de uma imagem à base de tinta.

Renan Teles

Renan Teles

E o que você gosta de fotografar?

No começo do texto afirmei preferir fotografias a fotografar. Mas isso penei a perceber. Creio que a maioria dos fotógrafos partilham do gosto pela viagem. Viajando para lugares próximos ou distantes, sempre sonhando em conhecer o mundo inteiro. E como o fotógrafo gosta de caminhar! Andar por aí com câmera em punho, sem rumo. E pensando sobre isso eu percebi que a fotografia que me dava prazer era sempre associada a esse personagem, ao flâneur – aquele que caminha por caminhar, por descobertas, nunca para chegar a algum lugar. E então eu vi que meu prazer não vinha do ato de fotografar, o ato era apenas um acessório que estimulava as caminhadas. Ao desassociar o prazer da fotografia do prazer da viagem e do flanar, saí ganhando pelos dois lados. Percebi que era capaz de aproveitar uma boa caminhada sem a desculpa da câmera (como o fumante que fuma apenas pela pausa), e que na verdade eu gostava muito mais de fotografia a ponto de estuda-la constantemente, apesar de não sentir quase nenhum prazer em fotografar. O meu gosto por fotografia é de vê-la pronta, depois de várias discussões internas, com amigos, com autores, documentários e pesquisas sem fim.

Ainda fotografo durante viagens, e me divirto. Mas gosto muito mais da fotografia quando chego em casa. Uma semana depois, no entanto, dificilmente uma fotografia de viagem segura o tranco das discussões. Então eu as tomo como rascunhos. O que mais gosto de fotografar são rascunhos. Fotografias que me servirão aos montes como referências para debates, para estudo de cores, de iluminação, de poses, de cenas. O que mais gosto de fotografar é isso, algo que eu possa ficar meses tratando no Lightroom, sem pretensão alguma de virar um trabalho pronto, mas que venha a enriquecer minha pesquisa e percepção.

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Renan Teles é artista independente, nasceu em 1986 e hoje vive e trabalha em São Paulo – SP. Com graduação em Desenho Industrial e formação técnica em Fotografia, atualmente dedica-se à pesquisa e produção artística em fotografia digital. Desde 2011 participa de diversas exposições coletivas e salões de arte pelo Brasil, como o EDP nas Artes no Instituto Tomie Ohtake, em 2012, o Arte Pará, em 2013, e acaba de ser selecionado para uma exposição individual em Recife, pelo edital Artes Visuais Recife.

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