Especial

Projeção Mesa7 2013 – Parte 3

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O aquém e o além repetem surdamente a dialética  do interior e do exterior: tudo se desenha, mesmo o infinito. Queremos fixar o ser e, ao fixá-lo, queremos transcender todas as situações para dar uma situação de todas as situações. Confrontamos então, o ser do homem com o ser do mundo…” Gaston Bachelard, A poética do espaço

Encerramos, hoje, o nosso especial sobre as projeções do Mesa7 2013. Passados alguns meses, desde que selecionamos todo material, rever os trabalhos foi além do exercício de simplesmente relembrar conteúdo. Rever todas essas imagens proporcionou um reencontro com sensações, uma redescoberta de nuances, camadas, espessuras.

Nos ensaios apresentados na 3ª parte da projeção, percebemos olhares voltados para o humano. Não para o objeto homem, e sim, para o processo homem, para a ontologia, para a construção de identidade, de reconhecimento, de pulso de vida: o ser que só existe por suas memórias, caminhos, marcas, dores, equívocos, paixões e, sobretudo, por sua natureza. A fotografia como arqueologia do homem no mundo ou como diria Soulages, a fotografia do homem que inventa um mundo.

Gustavo Pimentel abre a série com o seu “Levermelho”, que transmuta a densidade de uma cor quente, forte, dura, em leveza, suavidade, calma, como a água friazinha de um riacho. Guga se mostra em sua fotografia: seguro, consegue estar em cada sombra, em cada detalhe e brinca, como criança, como se a vida, um balão pudesse ser, ainda que frágil, mas delicada… Uma entrega de um fotógrafo que nos proporciona a delícia de se ver inocente e, por alguns instantes, voar. “Levermelho” é uma fábula que nos pega pela mão e nos leva a sonhar.

No contrafluxo, “Deusas do Amor”, de Melina Resende, faz a respiração sair do tom. O vermelho agora duro, denso, corte seco.  Corpos e instintos que se entrelaçam, em simbiose. Expostos, pulsantes, vibrando entre o sexo e o afeto; o sexo e a ilusão do amor. A fotografia de Melina é suor, cheiro de pele, de fumaça, de bebida seca no balcão. É uma risada que se ouve de longe, estampada no rosto estranho e na melancolia dos encontros. As “Deusas do Amor” é um trabalho que pede tensão, pede tesão e Melina edita a apresentação instigando a quebra de tom, quase o incômodo da pulsação fora do ritmo que torna a narrativa forte e ébria.

“Aline no calor de Fortaleza Mambembe” de Caio Paiva dá continuidade à atmosfera ébria dos sentidos. Na pausa, nos inquieta. Quem é Aline? Somos levados para o instante antes de um fato, a espera eterna do acontecimento. O que espera Aline? O tempo para como um alguém que prende a respiração. Aline, Aline… esperamos junto com ela, esperamos um olhar que explique, justifique, nos faça entrar em seus pensamentos. E o calor de Fortaleza nos deixa cheio de dúvidas. Quem é Aline? Caio consegue contar, com apenas duas imagens, infinitas histórias nos apresentando infinitas Alines.

Katyussa Veiga também conta histórias. Seu trabalho “O silêncio estica o lírio”, realizado na Chiquitania Boliviana, percorre sutilmente pelas dúvidas e surpresas de uma família se adaptando a uma nova paisagem.  A mudança, os novos símbolos, os sentimentos das descobertas, o olhar para o novo com uma delicadeza quase lírica.  Katyussa faz de Chiquitania Boliviana uma poesia, quando decide olhar sua relação de construção de novas referências, a partir de seus sentimentos e das relações pessoais. O novo em seu trabalho se mostra além da terra estrangeira, se mostra como uma pessoa à procura de seu pouso.

“Memórias” de Fernando Pires são retratos, pessoas, vidas, histórias. Os vazios que nos transportam para um intervalo de tempo, onde os objetos, os vestígios se comportam como cicatrizes. “Memórias” é silêncio e encontro. Arqueologia de vida, de vivências, que só pode existir pela própria existência. “Ausência” do Coletivo Pandilla segue na sintonia do silêncio. Homem e natureza em choque. Dessa vez a vida se coloca como matéria frágil, onde os vestígios se perdem e se transformam. As memórias deixadas para trás sem consentimento, um vazio quase violento, de quem perde. “Ausência” segue os rastros do cenário de destruição causados pelas chuvas, na região serrana do Rio de Janeiro, no início de 2011 e nos apresenta retratos de fios da fragilidade que é viver.

Em “Ancestralidade Africana” do Coletivo Enoá o homem é a história. O que é ser? Pertencer? Que espaço nos mostra quem nós somos e de onde viemos? Raiz é palavra forte e as imagens do trabalho do coletivo nos apresentam um documento sobre um povo, uma tradição. Detalhes e camadas do Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana no Brasil sutilmente reveladas em fotografias simples, diretas, como retratos 3×4 de memórias.

Em “Eu o Rio” (Espessura) de Alexandre Severo mergulhamos em nossas próprias margens. O fluxo de um rio retratado a partir do centro humano. O que temos de rio? Para onde seguem nossas águas? E as perguntas nos levam ao encontro de retratos do homem sendo rio, sendo pulso de nascente e morte. O trabalho de Severo corre como águas turbulentas em veias. O leito do rio pode ser um colo, o leito do rio pode ser uma mão áspera, pode ser silêncio também, ou uma criança correndo. Rio é gente e rio deixa de ser vida, porque o homem se coloca como margem. Mas como não ser vida? “Eu o Rio” é denso e turvo e para vê-lo precisamos emergir da água barrenta. Ser rio é ser terra e Severo se coloca como grão de seu curso, fotografando os aléns d’água.

Chico Ludermir encerra nossa projeção como um sopro, com o trabalho “Impermanência”. Quase com autorretratos, Chico é o ser das imagens. E ser ali, é complexo, indefinido, cheio de nuances, camadas e buscas. “Impermanência” é sopro por se colocar leve, não necessariamente frágil ou volátil, mas um sopro que toca a pele e arrepia, delicadamente. Um trabalho onde as cores fluem e convidam para um mergulho no ar. Em queda livre.

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