Especial

Projeção Mesa7 2013 – Parte 2

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O ato de projetar pode remeter a diversos significados, entre eles, coexistem tanto  a ideia de exibir uma imagem em uma superfície qualquer, a possibilidade de alcançar alguma forma de destaque, a prática de transferir para algo ou alguém a responsabilidade pelos próprios conflitos , quanto o meu preferido, que nos guia no raciocínio que traçaremos nessas imagens: projetar como sinônimo de arremesso, lançamento.

Quando pensamos em montar uma projeção fotográfica, era esse ato de lançamento, de jogo, de arremesso que nos orientava, no sentido de que, nossa compreensão de projeção era a do que se expõe ao risco. Mais do que uma exibição do que estava consolidado na produção fotográfica nacional, nosso interesse sempre se pautou no que estava surgindo e nos caminhos diversos apontados.

Essa perspectiva se reflete no encontro desses sete trabalhos que compõem a 2ª parte da projeção da Mesa7 2013. Thaisa Figueiredo, Amanda Teixeira, Marina Sobral, Juliana Nakatani, Eric Gomes, Wenderson Fernandes e Danilo Galvão dialogam sobre a multiplicidade da produção fotográfica contemporânea. Seus trabalhos alargam nosso conceito de fotografia, no sentido de nos fazer pensar sobre quais os caminhos possíveis, os percursos que traçamos para compreender a fotografia, seu papel como arte.

Mostram a fotografia em intersecção com o vídeo, o cinema, o stopmotion, a literatura, a instalação. A fotografia como tentativa, teste. Thaisa Figueiredo abre a série. Seu ensaio Fratria nos remete ao que o teórico Geoffrey Batchen chamou de sculptural photographs, ou em tradução livre, fotografias esculturais. Essas fotografias-objetos do cotidiano do século XIX que, além da imagem, eram vinculadas a outros materiais que adicionavam texturas ao seu manuseio: pedaços de tecidos, mechas de cabelos, restos de algum objeto pessoal capazes de remeter o observador a lembrar mais ativamente as pessoas retratadas. “E ao incluir essas texturas extras, elas transformavam ver em uma forma de toque. Mesmo quando isso está atrás de um vidro, você imagina a sensação do cabelo ou acariciando aquela seda bordada” (Batchen, 2004). Em sua série, Thaisa adiciona fios de lã que tecem ligações mais do que táteis entre as pessoas retratadas e nos remete a pensar as diversas interações humanas e os consequentes nós que elas firmam.

Na contramão do que é atável, Amanda Teixeira apresenta o tempo que se dilui. Reter o tempo é uma fotografia-devaneio que contesta nosso conceito de duração e nos estimula à perda de sentido da cronologia. O tempo reduzido a pó em água nos causa estranhamento ao se firmar no silêncio que, em tese, é próprio da fotografia, mas que anda tão desgastado pela relação quase obrigatória entre trilhas e imagens.

Longe de explorar essa relação a partir de clichês, Marina Sobral nos traz uma fotografia que se organiza ritmicamente como uma música, sem letra, mas com muita sonoridade. A imagem fotográfica que Marina nos mostra em 2bpm é lúdica e recorre à própria estrutura de discurso da imagem, sem ter necessariamente que equipará-la a uma frase feita. Sua fotografia é um quebra-cabeça de sons e frames que se complementam.

No 4º ensaio, Inter-Estado, de Juliana Nakatani, é a busca do complemento entre paisagens que orienta a construção da artista. Os dípticos entre cidades e paisagens alargam nossa visão sobre limites geográficos, mostrando como a paisagem física pode ser uma construção afetuosa.

Na Serra do do Arapua, Carnaubeira da Penha, Dona Joaquina mostra ao fotógrafo Eric Gomes a cura pela crença, em um realismo fantástico que nos remete aos espaços criados por Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas. Essa é uma fotografia que, entre imagens e discursos, se aproxima da literatura e nos faz tocar o conto.

Em Temporada de Compras, Wenderson Fernandes sugere o diálogo entre a fotografia e outro formato de expressão artística, a instalação. Wenderson nos apresenta o carrinho de compras como símbolo do capitalismo e do consumo esvaziador de sentido, o consumo que ameaça a integridade humana. Os carrinhos encontrados no meio das ruas urbanas guardam as posses de quem não tem o que possuir e parecem plantados em cenários montados pra nos remeter ao desgaste e ao desgosto.

Para dar conta dessa 2ª parte da projeção, o trabalho de Danilo Galvão, Freezing Time, que começamos a repercutir já na projeção da Mesa7 anterior e que propõe, mais do que a preservação do tempo de uma fotografia, a ideia de rejuvenescimento de sua memória.

A forma de explorar o vídeo como campo de alargamento da fotografia demonstra os caminhos sem volta que esse transposição de fronteiras tem promovido. A fotografia se experimenta cada vez mais constantemente, e essa experimentação tem percorrido diversos cotidianos.

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