Especial

Projeção Mesa7 2013 – Parte 1

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Vamos dar início a um novo Especial. Começamos hoje uma apresentação comentada dos vídeos que selecionamos para compor a projeção do último Mesa7. Desde a primeira edição do nosso evento, sentimos a necessidade de exibir imagens. Para isso, em 2011, abrimos um telão aos que desejassem projetar suas obras, no intuito de promover um intercâmbio entre nossas fotografias e para que pudéssemos ver o que nossos colegas vêm produzindo. Recebemos muito material, tanto com antecedência, dos que moram longe, como no próprio local, dos que estavam perto.

Na segunda edição do evento, em 2012, nos propomos o exercício de uma espécie de curadoria. Para nós, seria uma rica experiência mergulhar, discutir e selecionar juntas os trabalhos daqueles que desejassem projetar suas obras. E foi. Nos surpreendemos e vibramos com o processo e o resultado, e decidimos repetir a experiência em 2013.

Nesta terceira edição do Mesa7, que foi realizada em dezembro do ano passado, no Centro Cultural Correios, no Recife, apresentamos o resultado de uma rica seleção. Recebemos muitos trabalhos de todo Brasil, trabalhos lindos, intensos, que nos fizeram suar para escolhermos os mais representativos. Nos debruçamos coletivamente sobre todos os projetos e tentamos construir uma espécie de panorama do que vem sendo produzido atualmente no país. Foi difícil chegar a um único produto audiovisual para ser apresentado. Separamos o material final em 3 vídeos, unidos por uma espécie de diálogo entre suas linguagens e narrativas. São conversas visuais e temáticas, que nos deram o prazer em serem anunciadas como “o 7 orgulhosamente apresenta…”.

Queremos agradecer a todos que nos enviaram material e mostrar os selecionados aqui no nosso site, em um espaço comentado.

Começamos com o primeiro vídeo projetado, um passeio de 15 minutos e meio. Nele, estão presentes as obras de Karla Gonçalves (PE), Larissa Pinho Alves (PE/RJ), Samy Sfoggia (RS), Marcus Laranjeira (SP), Aryella Lira (PE), Valda Nogueira (RJ) e Daniela Pinheiro (RS). São obras que exploram o universo onírico, resgates de memórias, sobreposições, movimentos, barulhos e silêncios.

Começamos o vídeo com Untitled Tantibus, de Karla Gonçalves. O trabalho mistura vídeos com fotografias e explora sobreposições e distorções de imagens, incluindo autorretratos da fotógrafa. O ritmo da montagem dança com a música. A cor verde-musgo predomina, como se em algum pântano morasse um pesadelo perdido ou medos guardados – na casa da avó dela, afirma Karla, situando o trabalho em um lugar íntimo e em um papel catártico. A boca grita, mas só se houve a música – suave, mas igualmente assustadora. A trilha escolhida (Pluvius Aestivus – Pain of Salvation) seguramente reforça o clima. Do som à fala, entramos no universo de Larissa Pinho Alves. Em seu trabalho não só as imagens são sobrepostas à ação do tempo, mas o som também é um atropelado confuso de textos, assim como funciona a nossa memória. São legendas, descrições, narrativas ficcionalmente associadas àquelas imagens produzidas nas décadas de 1950 e 1960, apropriadas do arquivo de um oficial do exército brasileiro, que ela projetou e refotografou, dialogando com imagens de seu arquivo pessoal e imagens públicas oficiais. Larissa forja uma vida (seria a sua própria?) a partir dessas imagens e das memórias, bem confusas, que ela inventa para elas.

Se já vemos essa exploração da materialidade em Larissa, que fotografa projeções de fotografias de arquivo, Samy Sfoggia leva esses experimentos com a matéria ao extremo: digitaliza negativos 35mm em preto e branco, os distorce e manipula digitalmente, imprime, pinta, desenha, risca, digitaliza de novo e reimprime. Seu trabalho se chama REM (rapid eyes movement), que é aquela fase do sono em que sonhamos. As imagens são produtos de um insciente, incoerente e ilógico, um tanto caótico, como o de suas colegas. Uma estética do pesadelo, reforçada pelo áudio que é um barulho intenso de máquinas e apitos (seria um trem?). Nesta viagem saímos do ruído para o silêncio e adentramos no universo de Metrópolis, de Marcus Laranjeira. A associação ao filme de Fritz Lang não é à toa: Marcus explora as projeções de sombras e as formas geométricas da arquitetura urbana de São Paulo (que poderia ser qualquer metrópole) em sobreposições que nos levam a um universo caótico e denso, mas ao mesmo tempo transparente. É um silêncio pesado, mas vertiginoso.

Vertiginoso também é Um Duo de Sensações, de Aryella Lira. A fotógrafa mistura imagens de dor e alegria intensas com um poema de Álvaro de Campos e a música Minas, de Milton Nascimento. O trabalho, também com algumas sobreposições, resgata um feminino ligado à essência, ao que Clarissa Pinkola Estés chamaria de Arquétipo da Mulher Selvagem. Elementos como a água e o tomate (suculento, mas cor de sangue) se relacionam com o movimento, a dança dos corpos de mulheres, que gritam, ao mesmo tempo presas e livres. O contraste também está presente, porém de forma mais silenciosa, no trabalho Porto, de Valda Nogueira, não apenas nos tons, mas na representação contraditória. A obra explora a natureza e a solidão da praia de Sepetiba, na zona Oeste do Rio, lugar paradisíaco que sofre as consequências devastadoras da atividade portuária e da poluição. É o menos vertiginoso dos trabalhos desta primeira projeção, porém traz um resgate de memória em preto e branco que foge ao mero registro documental. Os vestígios e os mistérios deste paraíso degradado estão para muito além de uma compreensão direta. Os meninos, peixes e pássaros, a imensidão das águas e do céu de Sepetiba nos leva para uma dimensão interna.

Finalizando o primeiro vídeo, temos o trabalho de Daniela Pinheiro, que é o segundo da sua série Cartão de Memória. Nele, temos o que ela chama de cinco imagens-sonhos. Para ela, o presente é algo que não passa e que se prolonga, aumentando o passado. A obra é uma mistura de vídeos e fotos que nos levam a um passeio por fragmentos de imagens que parecem o mundo visto através da janela de um carro em movimento na estrada. Há a ideia de acúmulo e de percurso. Cada sonho dura a duração de um olhar. Em meio a paisagens de árvores, campos e águas, vemos pássaros e uma menina, solitária, ao final. Quem seria? A obra explora uma montagem que dança com a música. São fotomontagens, pedacinhos de imagens, que se unem na construção de um sonho guiado pela trilha sonora original do chileno Leonidas Jancidakis Arce e seu instrumento do tempo dos sonhos, o Yidaki, que envolve a viagem de forma mística.

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