Olhando pra sempre

Podia ficar olhando pra sempre Estelita

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Cais José Estelita | Pri Buhr

Cais José Estelita | Priscilla Buhr

Tem coisas que nunca deixam de nos surpreender, um friozinho bom na barriga que segue a descoberta. Eu ainda me surpreendo com o poder que a fotografia tem de traduzir tanto em apenas uma imagem, fico deslumbrada com a capacidade de síntese e eloquência que uma foto pode carregar, ou ao ver como os fotógrafos conseguem traduzir tantos significados e sensações. Saber que esse “poder” muitas vezes é um processo longo de reflexão e pesquisa, tentativas e experimentos é fascinante, mas admito que quando me deparo com uma imagem como a deste Olhando pra sempre o friozinho na boca do estômago é maior.

Com uma simplicidade absurda, a foto de Priscilla Buhr representa especialmente a Resistência, mas ela fala sobre um sem fim de outras coisas. Simboliza a fragilidade, fadiga, solidão e o abandono não apenas do Cais José Estelita (onde a fotografia foi feita na semana passada, 21 de maio de 2014, quando o Consórcio Novo Recife iniciou a demolição, sem as devidas autorizações, dos galpões do Cais para início da construção do Projeto Novo Recife) mas representa também uma cidade que já não se respeita, já não suporta mais tanta injustiça. Essa parede parece que pede ajuda… Pede que alguém a segure, que não a deixe cair.

É uma fotografia que não consigo deixar de olhar, de admirar, menos por sua beleza e mais por sua força e a necessidade de dar sentido aquilo que estamos sentindo e vivendo neste momento. O Recife (e o Brasil) encara momentos de enfrentamento e confronto, tanto com o “outro” quanto consigo mesmo, está sendo obrigado a olhar para o próprio umbigo e parece que não gosta tanto assim do que vê. A cidade exige mudanças, já não suporta mais o modelo vigente, desigual, injusto, insuficiente, desumano. O caso do Estelita é só mais um entre um milhão de outras urgências, mas enche nossas almas de esperança, simplesmente porque estamos nos dando conta de que podemos tentar fazer a diferença, de que juntos temos voz e força, de que vale a pena lutar e que esse não é um desejo isolado.

Para que fique mais claro o contexto que estamos vivendo e porque esta fotografia é tão representativa, colo abaixo um pedaço  de um texto publicado no blog do grupo Direito Urbanos, uma articulação de pessoas interessadas e preocupadas com os problemas da cidade do Recife, que se organizam em torno do desejo comum de participar mais ativamente das decisões políticas que regulam ou interferem na vida social da cidade, buscando alternativas de ação quando o interesse da cidade fica esquecido pela representação política formal. É um dos organizadores do movimento #OcupeEstelita.

“O ‘Projeto Novo Recife’, um megaempreendimento imobiliário de luxo na área central do Recife e idealizado por um consórcio formado pelas principais construtoras e empreiteiras locais, quais sejam, Moura Dubeux, Queiroz Galvão, G.L. Empreendimentos e Ara Empreendimentos. O referido projeto visa à construção de 12 torres empresarias e residenciais em uma área antes pública e – propositalmente – abandonada durante anos (da União e que foi arrematada por este consórcio, leilão, inclusive questionado judicialmente, tanto pelo Ministério Público de Pernambuco quanto pelo Ministério Público Federal), no Cais José Estelita, a beira do Rio Capibaribe, e que liga o nobre Bairro de Boa Viagem ao centro da cidade. O que não impede, por amor ao debate, a responsabilidade socioambiental do setor privado na destinação da área.

Assim, questionando a destinação imobiliária, a degradação ambiental, paisagística, histórica e arquitetônica do espaço, acontecem desde 2012 inúmeras manifestações que se denominaram “Ocupe Estelita” (influenciado pelas ocupações dos espaços públicos – praças e ruas, na Europa, em um movimento que reivindicava Democracia Real). Nos “Ocupe Estelita”, ante a necessidade de se organizar aquela luta pontual e construir uma pauta política de resistência ao Projeto “Novo Recife” surgiu o grupo “Direitos Urbanos”, campo político plural e horizontal em que se deram as discussões sobre o Cais José Estelita, e em que, com o passar do tempo, desembocaram as diversas lutas urbanísticas em defesa da cidade e contra as intervenções imobiliárias e estatais violadoras dos direitos urbanos e humanos.

Na última quarta-feira (21/05), após controversa autorização do Poder Público Municipal, a construtora Moura Dubeux operava a demolição dos armazéns históricos no Cais José Estelita em plena madrugada. Logo, várias pessoas correram para lá e impulsionaram corajosamente a resistência contra aquela medida, que posteriormente foi suspensa pela Justiça Federal e embargada pelo IPHAN. A luta contra o Projeto “Novo Recife” desembocou em um acampamento que já dura vários dias e consolida-se simbolicamente no Recife como uma luta contra hegemônica ao modelo de desenvolvimento urbano implementado pelo grande capital pernambucano e alicerçado pelo arcabouço estatal.  Luta que teve algumas vitórias e derrotas, ao longo deste tempo, mas que serve para nós cidadãos recifenses como um referencial de organicidade e possibilidade de intervenção direta em defesa da cidade e daqueles localizados na base da pirâmide social, trabalhadores e excluídos.”

Que esta imagem possa ecoar e fazer coro às vozes dos que estão se levantando, que a delicadeza desta fotografia guie nossos gestos e sua força e imponência nossos desejos por cidades melhores para vivermos.

Para os mais curiosos e interessados no tema, segue o blog do grupo Direitos Urbanos:

http://direitosurbanos.wordpress.com/

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