Olhando pra sempre

Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Luis García Reyes

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Después de la descarga | Luis Enrique García Reyes

Después de la descarga | Luis Enrique García Reyes

“O motivo escrito quase sempre era um arremedo do verdadeiro e tinha mais por serventia consolar o destinatário do que dar a se entender o remetente, pois como é que se explica, diga mesmo, que o motivo de ir embora era só o nada?” Adriana Falcão, A Máquina.

Existir é um processo complicado. Todos carregamos uma rede de forças e marcas que vão se construindo como “vida”: desejos, afetos, traumas, relações, medos, prazeres, frustrações, tristezas, ações, jogos de poder. Lidar com sujeitos e dispositivos é a luta diária, individual e partilhada, de cada um. Camadas e camadas de vivências e experiências vão nos constituindo, e uma delas, a mais remota talvez, se torna esquecida na memória consciente, mas nunca apagada na memória do corpo e da existência: nascer.

A posição fetal remete ao ovo, à origem, nos leva aos recantos mais primitivos da nossa intimidade, onde somos apenas potências, intensidades, que se aprontam para despertar. Não respiramos, não enxergamos, não falamos, não comemos. Somos Corpo sem Órgãos, como diria Deleuze e Guattari*, e não organismos.

Quando vemos esta fotografia, integrante do trabalho Después de la descarga, de Luis Enrique García Reyes, selecionado por convocatória para o Portfólio em Foco deste ano, sentimos um misto de aconchego e estranhamento. Aconchego, pelo esvaziamento aliviado provocado pelo retorno, pela desconstrução do ser, que a posição fetal nos permite – nos reconectamos com uma origem potente, um seio acolhedor, protegido, nosso, casulo de transformações radicais, dormimos. E estranhamento porque o corpo nu, frágil, exposto, repousa em um motor de máquina, lugar quente, mas jamais cálido, fechado, mas jamais protetor. Há muito o que sentir, há muito o que pensar. Ali, descansa um homem, em seu lugar, um lugar que grita desconforto, mas que, para ele, é um lar.

Poderíamos viajar nesta imagem a partir da relação homem-máquina. Poderíamos questionar os lugares nos quais afirmamos nossas reconexões, nossos resgates. Poderíamos criticar a ausência de uma natureza relacionada a uma posição tão biológica: porque não o mar ou a mata? Porque hoje repousamos sobre máquinas? Como falar de origens, de nudez, de feto, relacionando a questão a um motor de automóvel? Mas podemos passar sobre essas perguntas e irmos além (mantendo os tangenciamentos delas, de preferência).

García Reyes diz que o trabalho é uma reinterpretação e uma recriação de elementos que o remetem ao pai, caminhoneiro, que morreu quando o fotógrafo ainda era pequeno, explorando as representações de masculinidades. Talvez esse seja mais um estranhamento: nossas origens quase sempre estão atreladas ao feminino, à leveza da mãe. Mas para Reyes, seu alento (mas também possível desespero ao acordar) está naquela figura perdida, na qual e com a qual precisa se encontrar, se reconectar: seu pai (ou seria ele mesmo?). E a aspereza do masculino e da perda é tão uníssona com o universo do caminhoneiro, que ele não poderia buscar seu ventre, seu ovo, seu casulo, em outro lugar, que não ali, no coração da máquina.

Retornar ao ovo é um movimento que todos, vez ou outra, precisamos fazer, desconstruir nossa existência, dialogar com a origem, fabricar um novo Corpo sem Órgãos. É questão de sobrevivência. A imagem de Reyes mexe por isso. A luz azul toca a pele e o motor, acendendo o frescor no lugar da combustão: noite, sono, luar – reforço do aconchego. A luz acende, o motor não queima e o sono é suave. Mas alguém (sem rosto) vela este corpo, alguém conduz esta máquina, decide os caminhos, ocupa a cabine. Alguém que veste vermelho, tem os pés firmes e calçados no chão e os braços enrijecidos. Alguém que representa uma masculinidade, mas que não se pode identificar ou nomear. Ele representa, mas não se apresenta. E passeia numa escuridão difícil de ser preenchida: a perda precoce de um pai.

Poderia ficar olhando para sempre esta fotografia porque é impossível não se colocar no lugar daquele homem-feto e não mergulhar nos nossos próprios desconcertos, sentir os motores que nos sustentam e que acabamos instituindo como lares, reconhecer quem colocamos como condutores dos nossos caminhos noturnos quando estamos fragilizados. Olharia para sempre porque é como observar-se no espelho e fechar os olhos ao mesmo tempo.

*DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia 2. Volume 3. São Paulo: Editora 34, 2012 (2a edição).

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