Olhando pra sempre

Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Tuane Eggers

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Há vida por todos os cantos… | Tuane Eggers

Há vida por todos os cantos… | Tuane Eggers

Há certas categorias de imagens que possuem um intenso papel de reconectar as pessoas à origem de si mesmas. São para elas que ficamos olhando para sempre. Elas trazem algo de espiritual. A espiritualidade pode ser desenvolvida em vários âmbitos, e isso vai de cada um: rituais, estudos, atitudes, trocas, afetos, memórias. Um desses âmbitos está no resgate de uma relação com a natureza. Afinal, seria ela (principalmente na figura do sol) a responsável por todo o mistério da vida, da existência dos seres na Terra, da dinâmica dos ciclos e conexões. As raízes de tudo que somos, de toda uma cultura construída (na verdade, de várias culturas), está contida nessa dinâmica com a natureza. E algumas pessoas são mais sensíveis que outras a esse tipo de espiritualidade.

Tuane Eggers é uma delas. Entre tantos simbolismos e representações irônicas, icônicas, técnicas e engajadas, encontramos, em meio aos selecionados pela convocatória do Portfólio em Foco deste ano, a sensibilidade pelo mundo mágico da natureza. “Há vida por todos os cantos…” nomeia ela o ensaio. E há mesmo. As imagens do ensaio vão além de meros registros de criaturas ou paisagens clichês e criam uma atmosfera delicada de reconexão com um divino que está em tudo que vive ao nosso redor.

Algo chama a atenção: das 14 fotos selecionadas, 11 retratam cogumelos. A vida que Tuane destaca não está na natureza das plantas, nem dos animais, nem dos campos ou florestas ou mares e rios, nem mesmo do céu e das nuvens. Está nos fungos. Fungos são seres curiosos e encantadores. Espécies de vida bastante particular e, apesar de discreta, de fundamental importância para a manutenção do equilíbrio da vida no planeta e em sua relação, sim, com a vida humana.

Ora, no nosso imaginário, construído desde a infância (vide Alice no País das Maravilhas), o cogumelo é o dispositivo chave de expansão da consciência. Ele nos conduz ao mundo dos sonhos, até mesmo de alucinações. Se a vida é mágica, o cogumelo talvez seja a forma de vida que mais reafirma esse encantamento e misticismo. Os cogumelos, na fotografia de Tuane Eggers, não são meros representantes coadjuvantes da vida. Eles são misteriosos protagonistas. A atmosfera onírica, suspensa, enfatizada pelos efeitos orgânicos de uma fotografia analógica quase artesanal, é reforçada pelos personagens retratados.

Assim, sutilmente, essas figuras aparecem nas imagens deste ensaio e roubam a cena. Como numa espécie de hipnose um tanto caleidoscópica, ficaria olhando para sempre os cogumelos da fotografia de Eggers. O mais bacana de algumas imagens é que serve como um portal para descobrirmos novos universos, para mergulharmos em campos que nos passavam despercebidos, ou nunca haviam antes despertado nosso interesse. Afinal, não é todo dia que pessoas comuns se tornam curiosas a respeito de fungos e cogumelos.

Seguem algumas informações interessantes sobre eles: o Reino dos Fungos (é tão fabulosa esta dividisão das espécies vivas em “reinos”!), ou Fungi, é único. Estudado pela micologia, em algumas situações vista como ramo da botânica (que estuda as plantas), os fungos são geneticamente, na verdade, mais próximos dos animais. A maioria dos fungos são microorganismos difíceis de serem vistos a olho nu e se encontram muitas vezes em colônias. Alguns atuam como simbiontes ou parasitas em outros fungos, plantas ou animais (vide nossas temidas micoses), e muitos têm papel fundamental como decompositores de matéria orgânica na natureza (são ecologicamente indispensáveis). Uns frutificam como cogumelos, outros como bolores. Alguns são usados para fins medicinais (na produção de antibióticos, por exemplo), ou como fonte direta de alimentação (shiitake, shimeji, champignon, trufas…) e indireta também (fermentando pães, vinhos, cervejas, dando sabor a queijos…). E, claro, alguns cogumelos são considerados espécies sagradas a cerimônias e rituais religiosos e místicos ancestrais e xamânicos, e chegam a serem chamados de carne dos deuses (O Teonanácatl, especificamente, por exemplo).

Os cogumelos da fotografia escolhida de Eggers, da espécie Marasmius haematocephalus (agradecimento especial ao amigo João Junior e aos colegas do Departamento de Micologia da UFPE que ajudaram na identificação), nos fisgam pela textura enrugada e pela coloração avermelhada desses seres esponjosos. A imagem nos prende mais ainda pela relação com o ambiente esverdeado em que os retrata: seria água ou ar? – esses elementos que desafiam a gravidade e nos colocam em estado flutuante, mesmo quando nos encontramos, de certa forma, ainda presos ao solo. O foco seletivo reforça o universo onírico a que tanto nos conduzem os cogumelos. E ali, entre musgos e em grupo, em uma imagem singela e potente, esses delicados seres nos reconectam com a força de nós mesmos, com uma natureza quase sempre despercebida aos olhos vulgares, mas que mantém o mundo funcionando vivo, intenso, em seus ciclos pulsantes, nessa unidade mística que somos. A fotografia de Eggers é extremamente espiritual. Há fungos por todos os cantos…

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