Olhando pra sempre

Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Lúcia Gomes

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Lúcia Gomes

Lúcia Gomes

Uma colher, um chumaço de cabelo.

O que esse utensílio contem?

Do que essa imagem fala?

Nem que L faça 100 anos é uma foto que mais parece um filme de terror.

Emaranhada no cabelo posto na colher, a história de L, uma menina de 15 anos, presa sob a acusação de furtar um celular. Mesmo informando que era menor de idade, L. foi encarcerada numa prisão comum, em uma cela com cerca de 30 homens, durante 26 dias. Alguns presos exigiram que L. fizesse sexo com eles, mas como ela se recusou foi estuprada e torturada. Diante da sua resistência à violência, os homens confiscaram sua comida e L. passou a trocar sexo pelo alimento a que tinha direito. Outros detentos, revoltados com a situação, disseram aos carcereiros que, além de ser menor de idade, ela não poderia ficar presa com homens.  Os policiais, então, cortaram seu cabelo longo, liso e preto à faca, rente à cabeça. Como L. era uma menina franzina, ficou parecida com um rapaz.

Barbárie, bestialidade, revolta, compaixão… São algumas das palavras que me invadem quando olho para essa foto.

Nem que L faça 100 anos traz a delicada e contundente reflexão da fotógrafa Lúcia Gomes sobre a violência exercida sobre aquelas pessoas que nasceram mulheres.

Em tempos conservadores, violentos e vazios de significado, olhar essa fotografia é extremamente importante. Mesmo que seu conteúdo seja lacerante.

É importante mostra-la. É importante reconta-la.

Conheci o trabalho da Lúcia Gomes quando estava em Belém, descobrindo a intensidade das águas amazônicas, pensando no triângulo geográfico em que me movimento hoje. Neste triângulo, tão próximo e tão distinto, quantas L. existem? Em Recife, em São Paulo, em Belém? Quantas de nós somos L.?

Falar sobre a violência de gênero é sempre necessário.

Nem que L faça sem 100 anos… É necessário delicadeza e força para falar de L. É necessário paciência para educar.

 

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