Olhando pra sempre

Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Alexandre Severo

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Sertão de dentro | Alexandre Severo

Sertão de dentro | Alexandre Severo

Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato,

entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de

espaço, existe um sentir que é entre o sentir – nos interstícios da matéria

primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a

respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.

Clarice Lispector

Um dia você me falou que foi buscar a seca na paisagem, mas percebeu que, na verdade, a seca estava dentro você. Nesse dia, conheci seu coração.

Me lembro do silêncio, da falta de palavras cabíveis, do suspiro quase exausto em meio ao paradoxo de sentimentos despertados nesse encontro. Como foi bonito desvendar em seu olhar os seus segredos. Como foi desconcertante perceber que, em seus sentimentos mais profundos, encontrei também a minha busca. Mas nunca consegui te dizer palavras sobre essa fotografia com a mesma poesia e delicadeza que ela me abraçou. Ficou um “tá bonito isso hein?”, seco, raso, pequeno demais diante da devastação que a sua seca me causou. Mas você entendeu. Você sempre me entendia, sempre encontrava sentido nos meus devaneios fotográficos e brincava quando eu escrevia sobre o seu trabalho: “eu fotografei tudo isso que tu escreveu? nem eu sabia!”. Você fotografou muito mais, Severo. Muito mais.

Claro/escuro, seco/fértil, luz/sombra, vida/morte. O sertão é, por si só, um território de contrastes. Não há meios-tons aparentes. Ao deter um pouco mais o olhar sobre a paisagem, vou buscando rastros dessa força latente presente na terra e que podem escapar a um olhar mais desavisado. A sutileza que a paisagem mostra sua potência me remete ao cinza advindo do mais tênue encontro do preto e do branco, ao espaço presente entre os grãos de areia, aos silêncios oriundos da respiração do mundo. Essa é a minha busca.” Alexandre Severo

Você me falava dessa busca, do seu percurso em um sertão-sentimento e da descoberta de uma fotografia que já não contava mais a história do outro e sim, a história de si no outro. O seu sertão, o de dentro, o do coração, como um autorretrato, de seu vazio, dos descaminhos, das rupturas e do seu silêncio diante da fragilidade da vida, dos sentimentos, alí, como grãos de areia sob a luz da lua. Só nela você se encontrou.

Talvez, por te conhecer tanto, por entender a seca que você descobrira dentro de si, me faltaram palavras. Talvez, por perceber que esse seu encontro com seu olhar era algo só seu, não quis teorizar, adjetivar, qualificar uma fotografia que me falou tanto sobre a delicadeza da sua existência. Não cabia ali, no seu momento. Ainda não cabe em mim.

Mas você sabia o quanto essa imagem vibrou em mim. Te falei: “quero pra mim”. Você respondeu: “ela é sua”. Olhar para sempre, agora, diante dessa ausência, me chega como um alento, como o seu abraço, seguido de um beijo no rosto e um sorriso. Olhar para sempre, sentir para sempre, amar para sempre, Sev.

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