Olhando pra sempre

Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Miguel Rio Branco

[Baixe este post como um e-book]

Buraco na parede, 1993, Barcelona. Cibachrome | Miguel Rio Branco

Buraco na parede, 1993, Barcelona. Cibachrome | Miguel Rio Branco

Como posso ficar olhando para sempre um buraco na parede? Uma simples parede, um buraco e sou levada prontamente para outro mundo, um submundo.

Sou teletransportada para uma década qualquer do século XIX, me vejo sozinha num beco escuro, silencioso, lamacento. Estou usando um belo vestido velho e sujo nas barras, botas de couro marrom bem gastas, estou fugindo de algo ou alguém… Não sei ao certo, mas a sensação de perigo é iminente, a parede é fria, eu a toco para me apoiar, estava correndo e estou sem fôlego…

Desculpem-me se fui longe demais, mas cada vez que olho esta imagem de Miguel Rio Branco sou transportada a lugares sombrios e misteriosos que me fascinam. Cenários cinematográficos surgem em minha mente e me deixo levar. Esse é um dos tantos poderes da fotografia que muito me aprazem, posso viajar, assim como quando leio livros, no tempo e no espaço, posso ser outra pessoa.

Nesta bela e forte fotografia vejo tão poucos elementos e vejo, então, tanto mais com a minha imaginação. Miguel parece saber disso, a atmosfera criada, a escolha da luz, cor, composição (das linhas) e enquadramento abrem brechas para que eu queira saber onde esta parede vai terminar, qual cena vou encontrar. E o buraco, este quer que eu enfie a mão ou a cabeça nele e pouco importa o que estará lá dentro, é sublime e amedrontador de qualquer forma.

Sou declarada, assumida e escancaradamente fã de Miguel Rio Branco, sem me perguntarem, digo de boca cheia que ele é um dos meus fotógrafos preferidos e um dos maiores ícones da fotografia brasileira. E eu poderia ficar olhando pra sempre essa imagem e todo o trabalho dele.

Share Button

Comentários

  1. Na verdade, o que acho mais curioso sobre essa foto é que, apesar de o título estar aí para me localizar (Buraco na Parede), olho a imagem e, constantemente, sinto que a parede é, na verdade, um chão. Fico tentando esse movimento de girar o pescoço para a esquerda e me relocar dentro do espaço da foto, numa atitude que é como dar um empurrão na imagem. Esse movimento é escorregadio, arriscado porque parece inseguro e áspero como a textura da parede. E parece inútil, porque quando me dou conta, a parede, o buraco, as coisas todas voltaram ao mesmo lugar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *