Olhando pra sempre

Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Hans Bellmer

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*Por Carolina Nóbrega

Hans Bellmer

Hans Bellmer

Essa boneca me cala com o seu olhar. Seus Fragmentos. Suas ranhuras. Seu corpo em pedaços, disforme. Essa boneca.
Boneca como se pensa a mulher, feita em série sobre uma tal medida de apropriação que faltam-lhe partes, ela não tem o direito de constituir um todo. Mas ela vive, entretanto. Vive por entre toda a violência de suas cicatrizes e ruínas anatômicas. Seu olhar escancara seu desolamento num soco.
(esse olhar me transforma em paredes derruídas.)
Seu produtor a fotografa. Ele a produziu, agora a expõe em sua nudez, seu erotismo violento, sua impotência. Seu produtor e fotografo é o artista. Seu produtor e fotografo é um homem. Hans Bellmer. Um homem com a coragem de expor o olhar do homem para a mulher. Apenas um homem poderia produzir uma imagem tão clara, no osso, no pâncreas, na bile. Um homem com coragem de se assumir como agressor e voyeur de sua criatura. E assumir que sua criatura também o inquieta: Através do seu olhar, ela nos desnuda o homem que está por trás das câmeras. Seu olhar é impune, ela o desmascara. Ela nos mostra o fotografo. Mais. Ela nos mostra os homens como fotógrafos voyeuristas de suas bonecas de pedaços encaixáveis, excitados como narcisos pelo próprio olhar impune de suas criaturas, onde eles podem se espelhar em sua potencia de búfalo.
Hans Bellmer fala do nazismo, produz bonecas para expor a obsessão serial, sinistra e de perfeição da noção de Raça Ariana. Impiedoso com seu país e, para além disso, com os homens, ele expõe nazismo como um espelho hiperbólico e exagerado do falo. Mas sua obra ainda vive, não é um marco perdido a contar de um momento histórico. Sua obra se atualiza a cada olhar, a partir do impiedoso olhar da boneca. É um estupro. Uma invasão crua do real.

*Carolina Nóbrega trabalha com dança contemporânea e pesquisa fisicalidades e vestígios de movimento a partir de obras de artes visuais para a criação em dança. É integrante do Coletivo Cartográfico e do grupo de pesquisa 16 Mulheres e 1/2.

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Comentários

  1. Carolina, eu gostei muito do texto e da leitura que você faz da perspectiva da imagem. Esta foto me dói muito para olhá-la para sempre, mas a sua discussão é extremamente necessária. Agradeço a colaboração, as palavras bem colocadas, a precisão na escrita, o movimento do pensar e as reflexões que vieram junto com a imagem! Devia escrever mais por aqui!

  2. Olá Ana Lira… obrigada pelo comentário. Acho que nesse caso, olhar para sempre se diz exatamente em termos disso que é necessário, que, como eu disse, não se tornou um depoimento de um fato histórico e ainda arranha sentidos precisos para o real… necessário olhá-la para sempre para mim, por ser necessário, mesmo que dolorido, lembrar do que fere, fazer a denúncia. Obrigada por deixar as portas abertas para futuros escritos… Até!

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