Olhando pra sempre

Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Guy Veloso

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Guy Veloso

Guy Veloso

A Hidra era um animal mitológico que possuía 07 cabeças de serpente (sendo uma delas imortal), corpo de dragão e seu sangue e seu hálito eram altamente venenosos. Habitava um pântano junto ao lago de Lerna, na região da Grécia. Era assustadora não apenas por sua aparência, mas principalmente pelo fato de que aqueles que tentavam matá-la acabavam aumentando o seu poder, dizia-se que se uma de suas cabeças fossem cortadas, outras duas voltavam a nascer no lugar. Criada por Hera (esposa de Zeus), foi um dos doze trabalhos de Hércules, que matou-a cortando suas cabeças enquanto seu ajudante queimava e cauterizava as feridas para impedir as cabeças de nascerem. A última e imortal foi enterrada.

A mitologia e suas narrativas alegóricas cheias de significados são uma tentativa de traduzir a sociedade, o homem e suas complexas relações e comportamentos. Os mitos e ficções apresentam e explicam as origens do mundo e o cotidiano e aventuras de Deuses, heróis, mortais e seres mágicos. Estratégias para transmitir e salvaguardar às futuras gerações as memórias, fatos, lendas e fábulas de uma cultura. Nisso se aproxima um tanto da fotografia, pois ambas criam e recriam histórias. Cheias de simbolismos sugerem verdades e entendimentos, traçam caminhos e perfis, apresentam universos possíveis e impossíveis, nos aproximam de mundos distantes e brincam com a noção de realidade. Contam-nos sobre o passado, o presente e futuro, universalisando temáticas tratam de assuntos que tocam a todos nós.

Nesta fotografia vejo duas crianças que se tornam apenas uma. Elas se fundem, se misturam e se completam, transformam-se em um único ser, mágico. A fotografia assume a vez da mitologia e transmuta essas crianças numa Hidra poderosa, com olhos que enxergam em todas as direções, que parece explodir e querer trespassar os limites do quadro. Ao meu ver essa imagem simboliza a dualidade do ser humano, a unicidade entre o bem e o mal, que diferentemente do que apregoa o cristianismo, pode ser entendida como um todo em que suas partes não necessariamente rivalizam, mas se alimentam. Ser bom e ser mal é necessário, é vital, as duas faces da mesma moeda. As crianças, como as da fotografia, inocentes e puras, são o melhor exemplo disso, em suas maldades e bondades deixam transparecer o que quando adultos tentamos esconder, em seus pequenos gestos e atos, de crianças, agem por impulso e são capazes de atrocidades e benevolências, dando vazão aos sentimentos que irrompem da alma.

Essa leitura ganha contornos mais sólidos se pensarmos que a imagem é de autoria do Paraense Guy Veloso, fotógrafo que desenvolve um vasto e primoroso trabalho documental  em torno da fé e das religiões, suas fotografias capturam as mais diversas manifestações religiosas brasileiras e inserem-se no chamado documentário imaginário*. São registros orgânicos e infiéis, imagens imprecisas e incertas, muitas vezes ambíguas, extraídas de algum lugar entre o universo do fotógrafo, a fé dos crentes e o misticismo das religiões. É fácil de encontrar em seus ensaios imagens que nos desestabilizam e se apresentam menos como documento fiel (aquilo que sabemos que a fotografia não é e não pode ser) e mais como sugestões para a nossa imaginação.

*Documentário imaginário é o termo cunhado para denominar o caminho que se abre dentro do universo mais amplo da fotografia documental contemporânea. É abordado no artigo de Kátia Lombardi para a Revista Discursos Fotográficos, que pode ( e deve!) ser lido neste link aqui.

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