Olhando pra sempre

Podia ficar olhando pra sempre essa foto de Cris Bierrenbach

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Sem título (Cílios) | Cris Bierrenbach

Sem título (Cílios) | Cris Bierrenbach

O primeiro contato que tive com Cris Bierrenbach não foi através de seu trabalho como fotógrafa, mas, ironicamente, como personagem do projeto Mulheres Centrais, dos meninos do Coletivo Garapa, em parceria com a jornalista Sabrina Duran. Estive na abertura da exposição, em novembro de 2010, na galeria do Instituto Cervantes. Ali, entre muitas outras mulheres, ela falava da sua relação com o centro de São Paulo. Cada uma daquelas mulheres (e aquele projeto como um todo) mexeu comigo através da perspectiva feminina que trazia.

Cerca de seis meses depois, há um ano, fui ao Sesc Belenzinho ver a exposição Geração 00 – A Nova Fotografia Brasileira, com curadoria de Eder Chiodetto. Ali conheci a Cris fotógrafa, através de imagens da série Retrato Íntimo. Naquele momento eu já poderia olhar pra sempre qualquer uma daquelas fotografias. Retrato Íntimo me deixou uma eternidade de segundos olhando para cada radiografia que denunciava objetos cortantes e perfurantes localizados bem no centro da bacia de algúem. Não me importava se eles tinham sido de fato introduzidos dentro da vagina da pessoa retratada, como sugeriam. As imagens eram fortes suficientemente para mexer com o meu ego feminino e me deixar ali, estatalada. A legenda dizia: Cris Bierrenbach.

A primeira googleada que dei naquele dia assim que cheguei em casa foi em busca desta mulher. Então descobri que já a conhecia. Então descobri que aqueles objetos foram mesmo introduzidos (envoltos com vaselina protetora) em uma vagina e que a dona da vagina era a própria fotógrafa. Então descobri outros trabalhos de Cris e poderia escolher vários deles para olhar para sempre. Escolheria facilmente o próprio Retrato Íntimo ou mesmo o Infinito, que cheguei a usar como exemplo no meu último #diálogo. Mas escolhi este que posto aqui agora.

Cílios é um ensaio sem título de uma única foto. Ela se basta. Os fios escorrem pela face, quase como lágrimas. Pesados, densos, rios. Ninguém sabe onde terminam. Tudo o que eles pedem (e forçam) é que os olhos se fechem. E se respira fundo para sustentá-los, mas se ergue a cabeça. Cílios que brotam de um corpo limpo, cru, nu. Sem rímel, sem maquiagem. Pesados e fortes por si só. Sem cor, sem foco, sem riso, nem choro – apenas cílios.

Dizem que cílios grandes é sinal de feminilidade. Deve ser mesmo. Imagine o quanto é difícil ter cílios imensos, ser mulher de forma intensa. E Cris se coloca mais uma vez nesta condição de personagem modelo de si mesma e de nós todas (e todos), mexendo com minhas entranhas e minhas superfícies.

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Comentários

  1. Cris Bierrenbach é realmente sensacional. O texto, como de costume, impecável.

    Obrigado por compartilhar!

  2. Que loucura de foto! Fiquei uns 10 minutos olhando fixamente para essa foto, depois li o texto. Que loucura!
    Eu senti uma pontada de tristeza porque parece que a mulher é cega. Entretanto, quando li a redação, vi que a foto pode falar muito mais do que eu interpretei.
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