Olhando pra sempre

Podia ficar olhando para sempre esta foto de Nan Goldin

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Em comemoração ao lançamento do nosso site novo, decidimos produzir uma série de posts especiais que marcassem bem esse momento de transição. E para abrir o Olhando pra Sempre, um dos posts-chave do blog, decidimos produzir, pela primeira vez, vários textos que olhassem para sempre a mesma imagem: o autorretrato “Nan One Month After Being Battered, 1984″, de Nan Goldin. São cinco postagens, cada uma a partir do olhar de uma das autoras do site.

Confira cada texto abaixo.
Bella Valle | Joana Pires | Maíra Gamarra | Pri Buhr | Val Lima

Bella Valle

Nan Goldin

Nan One Month After Being Battered, 1984 | Nan Goldin

Por Bella Valle

Olhamos para sempre para uma imagem em duas circunstâncias: quando temos e quando não temos escolha. Este autorretrato de Nan Goldin é daquelas imagens que não nos permitem fugir. E as razões pelas quais não conseguimos sequer desviar o olhar desta fotografia (por mais que desejemos intensamente) nos colocam no mais mísero lugar dos humanos, um lugar entre o sadismo e o masoquismo. Um lugar estranho, mas tão íntimo.

Eu poderia tentar abstrair e me anestesiar em uma análise formal ou fria: “contraste forte“, “fundo verde” ou “flash direto de câmera caseira”. Eu poderia tentar contextualizar historicamente a fotógrafa (e personagem) para tentar refletir melhor sobre a foto. Mas seria muita covardia da minha parte. O que dizer de uma foto como esta? Oque dizer? A concretude grita. Berra. Silencia. Encara. Engole. Culpa. Dói. Machuca. Fere. Me rasga inteira. A concretude tem um corpo de mulher, um batom vermelho, roupas pretas. Tem olhos inchados e respiração suspensa.

Esta foto se basta por si só. Ao entrar em diálogo com alguém, alguém gente, alguém pessoa, alguém de carne e osso, alguém de sangue nas veias (e nos olhos), alguém que sente, ela não precisa trazer discurso pronto. Ao entrar em diálogo comigo, ela só fala de mim. No fundo, esta foto é a história de todos nós. Ou melhor: de cada um de nós. Não há quem possa fugir desta imagem. Sinto muito.

Nan veste a pele da humanidade e assume o papel de espelho. E é tão constrangedor encarar a própria miséria, o quanto somos espancados cotidianamente por nossas próprias heranças e escolhas, por nossas aceitações e não aceitações; o quanto insistimos em nos manter sofredores, presos, amarrados, amordaçados, torturados por nós mesmos ou por jogos de poder que estão muito além de nós, mas que carregamos
nas costas, tal qual escravos que nem sequer possuem direito de questionar, entender ou mudar sua própria situação.

A quantos socos no estômago, murros na cara e rasteiras não nos submetemos e submetemos outras pessoas (geralmente as mais amadas) o tempo inteiro? O que é amor e o que ele envolve/deve envolver? Do que se trata um autorretrato? Como queremos nos autoafirmar? O que mostramos e o que escondemos de nossas fragilidades? O quanto podemos ou aguentamos mostrar, escancarar, afirmar, expor? O quanto custa olhar na cara do inimigo quando o inimigo está dentro, íntimo, nas entranhas?

Olho esta foto. Olho, olho, olho… Para sempre. Ela não se esgota. Continuo olhando até mesmo quando já não estou diante dela. Sonho com ela. Tantas coisas passam na mente e no peito… E não sei se tenho gratidão ou rancor da fotógrafa por fazer isso por mim.

 

Joana Pires

Teste de Rorschach

Teste de Rorschach

Por Joana Pires

De forma simples, podemos definir o Teste de Rorschach como um sistema codificado criado com o objetivo de avaliar psicologicamente uma pessoa. São aquelas placas de imagens abstratas aquareladas utilizadas nas sessões de psicologia de muitos filmes de suspense. O teste foi desenvolvido inicialmente por um alemão chamado Hermann Rorschach, em junho de 1921. Tem por base um conceito chamado hipótese projetiva, que reverbera na teoria freudiana. Segundo esse conceito, uma pessoa, ao ser confrontada com uma situação ou informação ambígua, ou sem um significado determinado, tem a tendência de ler a informação projetando aspectos da própria vida e da própria personalidade.

Numa análise projetiva, o analista tende a reconstruir a personalidade do seu analisado pelas respostas que colhe no teste. Essa forma de projeção foi admitida por Freud como uma espécie de mecanismo de defesa. É aquela filosofia de mesa de bar que diz que o que vemos de negativo nos outros reflete o que temos de negativo em nós mesmos. Ou para ser menos restrita, nossa interpretação do mundo e das informações que recebemos é mediada por todo o nosso contexto de vida.

Nan Goldin

Nan Goldin

Olhar para sempre esta fotografia de Nan Goldin é uma espécie de confrontamento com uma das pranchas de Rorschach.

A imagem faz parte do livro The Ballad of the Sexual Dependency, e sobre ela, Nan uma vez afirmou:

For a number of years I was deeply involved with a man. We were well suited emotionally and the relationship became very interdependent. Jealousy was used to inspire passion. His concept of relationships was rooted in … romantic idealism … I craved the dependency, the adoration, the satisfaction, the security, but sometimes I felt claustrophobic. We were addicted to the amount of love the relationship supplied … Things between us started to break down, but neither of us could make the break. The desire was constantly reinspired at the same time that the dissatisfaction became undeniable. Our sexual obsession remained one of the hooks. One night, he battered me severely, almost blinding me.

A fotografia expõe o paradoxo de uma contradição extrema: os resquícios de uma violência grave, e a placidez de um autorretrato produzido, autorizado e, mais do que tudo, controlado. Em frente a um flash forte e em meio ao tom saturado de verde mar vinhetado, Nan contempla a objetiva. Seu cabelo brilha, ela usa pérolas, brincos grandes e o batom vermelho de sua boca está perfeitamente desenhado, num traço que exige, se não destreza ou prática especial, pelo menos um pouco de calma, serenidade.

E é com essa serenidade que ela contempla a câmera.

Não sei o que nos faz seguir serenos após os desandamentos que percorremos. Mas a foto de Nan mostra isso. Uma mulher que se maqueia, mesmo que em seu rosto estampe hematomas e marcas da força desmedida de alguém descontrolado. O olho travado de sangue ainda enxerga e diz. Se maqueia não para esconder as cicatrizes, mas talvez porque a rotina é, muitas vezes, a base que nos orienta a seguir adiante depois de alguma situação traumática. A rotina pode nos fazer andar. E a mulher que ela mostra para a câmera só tem essa serenidade para oferecer a quem a vê. Essa serenidade que age como uma bomba em quem espera dela o desespero.

Numa relação de dependência afetiva, cada pessoa envolvida vive um retrato de Nan Goldin abafado. A violência em que essas relações se baseiam, mesmo quando não física, é especialmente destrutiva. A agressão, talvez mais do que expor Nan, expõe a nós mesmos, nossas afetividades e descaminhos, mas principalmente, nosso medo de enfrentamento dessas situações e de entendimento de que essas situações existem e estão próximas, estão em nós mesmos. É uma foto feita efetivamente para não esquecer, para olhar para sempre e ver, com serenidade, a escolha de para onde não retornar.

 

Maíra Gamarra

Nan Goldin

Nan Goldin

Por Maíra Gamarra

A violência carrega seu fardo, e segue empurrando-o goelas abaixo. Agora mesmo, olhando para essa fotografia, sinto um peso enorme que passa imediatamente a ser meu também. No limbo entre precisar olhar esta imagem e não querer vê-la de jeito nenhum, nasce uma angústia no peito, ela se instala e começa a me devorar, me pergunto como é possível falar sobre violência sem ser também violenta, ou sem ser também violentada? Este texto nasce querendo ser um caminho, mas eu ainda não sei como vai terminar.

Não quero saber a história desta fotografia, não quero saber em que contexto foi feita, não quero saber se é realidade ou ficção. Não quero. É dolorosa demais e eu sou fraca, admito. Sou muito fraca para lidar com certas verdades, mesmo sendo por elas completamente apaixonada, na exata medida em que sou apaixonada também pela mentira, pela farsa, pela forja. Mas sou fraca, eu dizia, demasiadamente fraca, tão fraca que prefiro fugir dessa fotografia. Afinal, não é isso o que fazemos todos os dias? Fugimos da verdade, da dor, da tristeza, da solidão… Fugimos sempre, por medo, fraqueza, conveniência, conivência.

Não quero olhar essa imagem nem mais um minuto sequer. Sou fraca, meu estômago embrulha, meus olhos se enchem de lágrimas, nasce um buraco no peito. Sei que vocês irão me entender e talvez perdoar, quem sabe até esquecer. Não é isso o que fazemos todos os dias? Esquecemos por pressa, urgência, necessidade, sobrevivência.

Dessa fotografia, eu quero é distância, contrariando o título desta seção, não quero ficar olhando pra sempre essa foto. Ela me tira do meu conforto, me tira a estabilidade, a segurança, a paz, a calma. Não quero isso. Eu prefiro fingir que nunca a vi. Não é isso o que fazemos todos os dias? Fingimos que não vemos, não ouvimos, não falamos. É mais fácil, confortável, político.

O que acontece, entretanto, é que quando olho essa imagem ela se crava em mim, tal como um bicho voraz, sedento, ela crava seus dentes em meu corpo. Eu simplesmente não tenho opção, não é mais uma escolha, não posso evitar olhá-la, não posso fugir, esquecer ou fingir. Sou fraca, e ela, a fotografia, é muito, muito mais forte do que eu. Sou obrigada a encarar essa verdade, a lidar com seu poder, sua força, sua potência. Porque a violência, agora me dou conta, é poderosa. Seu poder, talvez o mais perverso de todos, reside neste espaço em que seu desconforto instaura a alienação. Pensando escapar, somos cúmplices.

“Ah! Desgraçados!
Um irmão é maltratado e vocês olham para o outro lado?
Grita de dor o ferido e vocês ficam calados?
A violência faz a ronda e escolhe a vítima,
e vocês dizem: “a mim ela está poupando,
vamos fingir que não estamos olhando”.
Mas que cidade?
Que espécie de gente é essa?
Quando campeia em uma cidade a injustiça,
é necessário que alguém se levante.
Não havendo quem se levante,
é preferível que em um grande incêndio,
toda cidade desapareça,
antes que a noite desça.”

Bertolt Brecht

 

Pri Buhr

Nan Goldin

Nan Goldin

Por Pri Buhr

Para não esquecer o sofrimento. Para não esquecer. Não esquecer. Não silenciar. Não.

Como posso olhar a dor no fundo de seus olhos? Nunca fui capaz de encarar a dor, a minha dor. Talvez por isso esse autorretrato de Nan Goldin me machuque tanto. Dói demais olhar para dor e não ser capaz de olhá-la para sempre. Carrego em mim cicatrizes densas, cicatrizes de feridas ainda abertas, que ainda sagram, escorrem, sujam, me preenchem de culpa. O peso da culpa onde não existe culpa é insuportável. Mas não sou capaz. Não sou forte o suficiente para assumir o meu corpo de criança dilacerado. Mas, vez ou outra, me deparo com esses olhos vermelhos, que gritam, que não calam, não aceitam e sinto uma pulsão de vida. Há pelo menos 20 anos, me pergunto porque minhas feridas não saram. Não, Nan, ainda não posso. Ainda não. Há pelo menos 20 anos, continuo me ferindo tentando esquecer a minha dor maior. Sobreponho angústias, seco lágrimas, crio máscaras, e sigo sem olhar para trás, como se a memória não me assombrasse, porque não tenho forças para lembrar o sofrimento, para tocar nas minhas dores de corpo aberto.

Tenho pensado que aquilo que se esquece é mais verdadeiro do que o que se lembra. O que se lembra é carregado de versões, conveniências, fantasia, necessidade, deslocamento e montagem. Não que por isso seja menos legítimo; mas é o que a memória pode e, ao mesmo tempo, precisa. Já o esquecido, não. Não há como acrescentar nada ao que se esquece. o esquecido é tão verdadeiro, que precisa ser riscado a corte seco e rente. A verdade parece estar mais no vazio, num oco que eventualmente pode ser preenchido. Mas a lembrança que possivelmente o preencherá já será uma verdade na justa medida do que a memória pode e quer. A verdade e a mentira são cabimentos do belo e da dor.

Tenho pensando muito naquilo que se tenta esquecer, assim como no poema de Noemi Jaffe. E sinto que não posso olhar para sempre essa fotografia. Não posso olhar para sempre o que não posso trazer à tona. Sigo em um exercício de esquecimento, do contrafluxo da não aceitação do que foi. Sinto, muito.

 

Val Lima

Nan Goldin

Nan Goldin

Por Val Lima

Pensei em começar este texto com estatísticas. Trazer números para falar sobre a dor. Talvez para deixá-la bem longe de mim e fingir que a violência contra as mulheres nada tem a ver comigo. Fingir que nunca passei por uma situação dessas.
Também pensei em começar esse texto com estórias. Trazer contos da tradição oral, mergulhar em cada uma de suas camadas e iniciar uma conversa sobre o feminino profundo. Perguntar para o conto tradicional o que esta foto traz para ele e o que ele, o conto, traz para mim.

E foi assim, olhando para o olho vermelho e machucado da Nan Goldin, que as estórias me falaram uma frase curta e direta: escreva sobre você!

Respiro fundo. Tento falar de mim. Não consigo. É mais fácil falar da Nan Goldin. Dizer que ela fez esse autorretrato para não esquecer o sofrimento de ter sido espancada por um ex-namorado.

Tento outra vez. Respiro fundo. Olho de novo para a foto. Agora eu me vejo. Eu quero ficar olhando pra sempre esta foto da Nan Goldin para não esquecer o que me aconteceu.
Ao contrário de sua pele ferida, do seu olho machucado, meus ferimentos nunca puderam ser vistos. Durante três anos e meio vivi uma relação de violência psicológica. E hoje, quase dez anos depois, ainda sinto culpa e vergonha. Ainda me pergunto como eu pude viver uma relação tão abusiva. Como eu permiti que isso acontecesse? Como é que eu, uma pessoa inteligente, feminista, independente e amorosa pude me submeter a este tipo de coisa? Uma voz, num tom muito baixo, ainda insiste em me dizer que fui burra, incompetente, incapaz… Ainda escuto a fala de alguns amigos que achavam que eu era responsável por viver aquele inferno, que achavam que eu estava em desvantagem, porque naquele momento eu não era financeiramente independente.
E a gente segue acreditando que a culpa é da vítima, sempre.

Está na lei nº 11.340/2006 que a violência psicológica é um tipo de violência doméstica e familiar contra a mulher, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação.

Está na lei que o que eu vivi é um crime. Está na lei que o comportamento do meu ex-companheiro, que fez com que eu acreditasse ser uma pessoa inferior, incompetente, frágil, incapaz e insegura, é um crime. Fui levada a acreditar que ser eu mesma era um grande erro, porque tudo o que eu fazia não era suficiente, não estava certo, no entendimento do homem que eu amava.

Hoje, quase dez anos depois do fim dessa relação, minha vida mudou bastante, vivo o peso e a leveza das minhas escolhas com alegria, mas ainda carrego uma cicatriz profunda no peito. Eu, que tenho tanto amor em mim, continuo querendo acreditar nas pessoas, continuo desejando acreditar no amor outra vez. Nem sempre consigo.
Eu preciso olhar para sempre esta foto da Nan Goldin para lembrar que apesar da violência contra a mulher estar tão naturalizada, não é preciso marcas para que ela possa ser vista. Por isso é preciso falar sobre este assunto.

Uma em cada três mulheres sofre algum tipo de violência. Uma em cada três mulheres é violentada de alguma maneira por um homem. Somos todXs vítimas. A violência de gênero é um problema nosso, de homens e mulheres, por isso faço um pedido: não silenciem!

*Com todo meu amor e respeito para todas as mulheres da minha vida que já sofreram algum tipo de violência doméstica.

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