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Touching Strangers

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Touching Strangers |  Richard Renaldi

Era um domingo de sol em São Paulo e a Praça Roosevelt estava lotada e colorida durante o evento Existe Amor em SP, um movimento por uma cidade mais humana, que clama por mais amor, respeito e solidariedade. Apesar de compreender o significado político daquele ato, meu olhar recifense achava muito natural aquela movimentação toda. Só depois pude entender o quanto esse encontro era especial para cidade. Em São Paulo, mas não só aqui, parece ser cada vez mais difícil conviver com o outro, estar próximo de estranhos, dividir espaços públicos que são destinados, entre outras coisas, aos encontros. Fiquei meio perplexa ao constatar o grau de dificuldade a que chegamos, parece que não conseguimos mais transcender o individual e chegar no coletivo, parece que não conseguimos mais dividir espaços públicos sem que isso seja um desconforto muito grande.

Touching Strangers | Richard Renaldi

Ainda sob o impacto dessa situação, conheci o trabalho Touching Strangers do fotógrafo americano Richard Renaldi. A ideia é muito simples, fazer retratos de pessoas que não se conheciam, mas que deveriam interagir fisicamente de alguma maneira. Inspirado por uma imagem de um projeto anterior, Bus Travelers, Richard diz que se sentia fascinado pela forma como grandes grupos de pessoas estranhas pareciam se relacionar umas com as outras nas ruas de Nova Iorque.

A linguagem corporal das pessoas fala muito sobre essa relação fugaz e espontânea criada por Richard entre pessoas estranhas. Em algumas fotos as pessoas estão extremamente confortáveis, em outras há um visível constrangimento.

Segundo o fotógrafo, as ações mais comuns eram colocar o braço ao redor do outro ou apertar as mãos, o que exigia dele uma direção que estimulasse a interação entre as pessoas.

Touching Strangers | Richard Renaldi

Diante do Touching Strangers, fico me questionando qual o limiar entre o distanciamento natural entre pessoas estranhas e a dificuldade de conviver com o outro, nesta sociedade racionalista e cada vez mais fragmentada que de alguma maneira menospreza os afetos, o toque, em prol de um duvidoso desenvolvimento.

Touching Strangers |  Richard Renaldi

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Comentários

  1. Que mote bonito, essencial.
    Tudo tem íntima relação com o Sagrado, como partos mais humanos, mães e pais conscientes, o artesanal mais estimulado, consciência alimentar, produção sagrada de alimentos…
    Enfim, que um toque-afeto como esse teu Val, trespasse corpos como lança e mute idéias.

    muito grato
    .

  2. quanto mais estudamos assuntos relacionados à fotografia, mais claramente chegamos à conclusão de que não há perspectivas absolutas nessa área, quem sabe apenas a necessidade de uma reflexão constante sobre o que vemos.

    pois bem, sempre ouvimos dizer que uma fotografia nunca é a realidade capturada, mas quando vejo esse trabalho logo penso que “nunca” talvez seja uma palavra forte demais…

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