Diário de bordo

Mesa7 2013: Os limites da fotografia

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Diário de Bordo escrito especialmente por Eduardo Queiroga

Mesa7 | Renata Pires

Mesa7 | Ytallo Barreto

Uma mesa pode ser o lugar de grandes encontros. Mesa de bar tem essa vocação: juntar amigos, compartilhar ideias, boas conversas. Reza a lenda – mais uma na mitologia pernambucana? – que um grupo de amigas, movidas pelo interesse em comum sobre fotografia, se reuniam numa mesa de bar para discutir os rumos desta linguagem. As discussões eram animadas e as meninas saiam instigadas, cabeças borbulhando de ideias, desejos de novos debates, vontades dessa coisa boa que é conversar sobre o que se gosta. Vontade tão grande que a mesa de bar era pequena, era preciso expandir esses limites, compartilhar essas discussões com mais gente, convidar e abrir espaço para mais interlocutores. As meninas buscaram outro espaço, mas não esqueceram a mesa onde tudo começou, a mesa de número 7, daquele bar na área central da cidade, número que daria nome ao grupo. O debate em torno da fotografia, então, seguiu para um blog, um dos vários desdobramentos dessas primeiras conversas, dessa vontade de pensar fotografia, de olhar para dentro de cada um no que cada um leva de fotográfico. Muitos desdobramentos e instigações depois, quase três anos de existência do blog, a boa conversa envolvendo fotografia ganha contornos de evento: o Mesa7. Na sua terceira edição, que aconteceu nos dias 14 e 15 de dezembro, trouxe como mote “os limites da fotografia” e envolveu leituras de portfólio, projeções, bate-papo e workshop com Fernando Schmitt, festinha e lançamento do novo site. Pois é, o 7Fotografia agora revê seus limites, deixa de ser blog para virar site.

O Mesa7 foi uma festa, festejamos a fotografia. Se o Mesa7 mantém referências àquela mesa lá do início, ao redor da qual muitas discussões fotográficas inspiraram ideias e vontades, essas referências não ficaram apenas no nome. Os dois dias do evento proporcionaram debates por vários vieses. O gaúcho Fernando Schmitt, hoje radicado em São Paulo, trouxe suas contribuições. Fotógrafo e mestre em comunicação, Fernando orientou o workshop “A fotografia no limite da fotografia: uma aproximação ontológica em quatro atos concêntricos atravessados por desejos anacrônicos”, que aconteceu no Forte das Cinco Pontas, no domingo. Na noite do sábado, sua fala atuou como uma introdução a algumas das suas ideias, que seriam aprofundadas no dia seguinte.

Mesa7 | Ytallo Barreto

Mesa7 | Ytallo Barreto

Mesa7 | Renata Pires

Mesa7 | Renata Pires

Falar dos limites significa avançar no terreno da história e da ontologia da fotografia, refletir sobre sua natureza. Fernando vem fazendo isso, juntamente com Fabiana Bruno, observando a fotografia no limite do tempo, da memória e da não memória, da aparência – do se parecer fotografia. Ele sugere quatro atos concêntricos para a sua “aproximação ontológica”. Não devemos olhar para esses atos como uma sequência necessariamente histórica ou cronológica, mas sim como “desejos anacrônicos”. Aspectos trabalhados em cada um desses atos podem ser percebidos em épocas e movimentos diferentes.

O primeiro afirma que a fotografia é uma técnica. A despeito de conhecermos mais profundamente a técnica, de valorizarmos mais ou menos esse conhecimento, fotografar sempre pressupõe uma técnica. Não há como fugir disso. Fernando chega a defender uma ideia mais radical de que não existe imagem sem câmera, de modo que o domínio da técnica proporciona a exploração de potencialidades discursivas: a fotografia ganha materialidade em função da técnica que a produz. O outro ato concêntrico aponta para a ideia de que a fotografia é uma linguagem, fazer fotografia é produzir discurso, operar no campo da interpretação. O ato mais polêmico talvez seja o terceiro, que fala que a fotografia não é mais fotografia. Aqui há uma discussão em torno das alterações que surgiram com o advento do digital, em que as diferenças com a chamada fotografia analógica seriam maiores do que as semelhanças. A fotografia agora é código, é formada por bits, é informação digital. Por fim, podemos tomar como um efeito do anterior, seu quarto ato afirma que a fotografia não é mais só, pois não é possível pensá-la isolada de todas as outras linguagens, técnicas e potencialidades compartilhadas pela fotografia. Não é mais só fotografia. Fotografias que se comportam como vídeo e vídeos que parecem fotos são apenas duas vertentes de um horizonte criativo em que esses limites são tensionados. Sua preocupação não se coloca no sentido de engessar os gestos, mas como caminho para rever tais fronteiras, para se perceber as possibilidades que se abrem, daí a preocupação com uma “aproximação ontológica” e não conceitos fechados: estabelecer especificidades sem necessariamente excluir outras ideias.

Transversalmente aos quatro atos, Fernando vai desenvolvendo alguns desejos da fotografia, como aquele que diz que toda fotografia deseja existir. Esse desejo pressupõe uma técnica que determinará um resultado, uma materialidade. O conhecimento proporciona a escolha: a técnica como sentido. Hoje nos é possível produzir um daguerreótipo, desde que isso acrescente algum sentido ao nosso trabalho. Diversas imagens foram apresentadas, não como cânones da história da fotografia, mas como “pretextos” para as discussões. Ele traz “A series of unfortunate events”, trabalho que Michael Wolf desenvolveu totalmente através de cenas do Google Street View, que chegou a receber menção honrosa no World Press Photo, um dos maiores prêmios de fotojornalismo do mundo, para abordar como os limites são ampliados e como potencialidades surgem através dos usos sociais que são dados às novas tecnologias. A técnica atuando na expansão da capacidade de ver.

Também discutimos desejos da fotografia mostrar o que não foi visto, de inventariar o mundo e de se difundir, desejos que compartilham, também, essa expansão. A fotografia quer mostrar aquilo que não queremos ver e, com isso, quer mudar o mundo. Mas ela quer ser vista, também. Uma fotografia que nunca foi vista é uma fotografia? É possível pensarmos uma fotografia sem fotografia? Revisitando o trabalho de muitos fotógrafos de épocas e escolas diferentes, Fernando vai passeando por essas e outras questões, num ritmo calmo na fala, mas enérgico nas ideias. Num dado momento, inverte o fluxo e lança um desafio: que os participantes desenvolvam propostas que sejam atravessadas por objetivos, digamos, incomuns: dar a ver as fotografias sem imagens, pensar modos de escrever fotografando. O grupo se vê envolvido numa grande tempestade de ideias. A heterogeneidade dos participantes, tanto na experiência com fotografia quanto na sistematização de projetos, acarreta reações diferentes, algumas ideias mais tímidas, outras mais arrojadas. Desvios acontecem, mas isso é natural de qualquer trabalho coletivo. O importante ali não era chegar num grande projeto finalizado, mas estimular um exercício de repensar limites. Mais do que respostas, Fernando procurava colocar perguntas e, sair de lá com tais dúvidas era algo mais promissor. Duvidar da verdade da fotografia, perceber a necessidade de um jogo de crenças que envolve essa linguagem, rever seus limites e perceber que ela pode ser confundida com outra coisa, empreender caminhos fotográficos em que não necessariamente produzimos novas fotografias, ou seja, refletir sobre os limites não para marcarmos num mapa ontológico seus contornos, mas para percebermos que eles podem ser um pouco mais para lá ou para cá do que imaginávamos. Aproximações ontológicas atravessadas por desejos anacrônicos.

Fernando Schmitt | Val Lima

Fernando Schmitt | Val Lima

Não cronológico também é o meu relato. As leituras de portfólios aconteceram na tarde do sábado, oportunidade importante para dialogar sobre o próprio trabalho. À noite, a programação foi mais intensa. No auditório do Centro Cultural Correios, pudemos assistir a projeções de trabalhos selecionados – o 7Fotografia fez uma chamada de trabalhos tanto para as leituras quanto para as projeções – entre um total de mais de 60 inscrições de todo o país. As projeções foram divididas em três blocos, distribuídos ao longo da noite. O conjunto dos trabalhos tensionavam essa noção de limite que permearia não apenas o bate papo da noite, como também o workshop do dia seguinte. A grande maioria dos ensaios apresentados – se é que ensaio é a melhor palavra – foram novidade para mim. Mas percebi, também, que alguns dos que já conhecia, receberam nova roupagem e outros, que habitavam apenas o campo das ideias, haviam sido desenvolvidos. A dinâmica do meio digital propicia uma obra sempre em revisão, em transformação.

Bella Valle, Joana Pires, Maíra Gamarra, Pri Buhr e Val Lima se revezaram nas falas, entre apresentações, agradecimentos, reflexões e emoções. Mostraram o novo site e destacaram as mudanças no formato da seção 7Fotos: o convidado define o tema a ser desenvolvido, mas isso não é repassado a todas as integrantes. Lembra a brincadeira de “telefone sem fio”, como disse Beto Figueiroa, o fotógrafo da vez. Apenas Maíra Gamarra soube que o tema era “morte e vida”. Daí por diante, cada fotógrafa produzia sua imagem inspirada unicamente pelas fotografias anteriores, até chegar novamente em Beto. Apenas a primeira imagem foi feita inspirada nas palavras, as demais tinham como ponto de partida uma outra fotografia. Depois seguimos para a festinha, com direito a muita foto e bons papos. Mas sem exageros que a manhã seguinte prometia. Afinal, bons encontros levam a desejos de novos encontros. Boas conversas sobre fotografia pedem novas conversas. As meninas do 7 sabem disso e o Mesa7 é só um exemplo. Mas, será que a fotografia não é mais fotografia depois do advento do digital? Será possível falar de fotografia sem usar palavras? Como escrever fotografia?

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