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La Hydra e os coletivos fotográficos

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La fotografía ya no es una práctica, es un hábito. Muta, se transforma, no hay manera de asirla, aparecen sin pausa nuevas formas de producir y consumir imágenes. (La Hydra)

Passados os primeiros momentos de entendimento sobre os coletivos fotográficos e superadas algumas das críticas dirigidas a esse modelo de produção, em particular à noção de autoria coletiva, que pretensamente suprimiria a individual, as discussões em torno do tema caminharam em outras direções, como: modelos de organização coletiva, o fazer fotográfico além do clique, processos de criação coletivos e colaborativos, produção em rede e a coletividade como estratégia de sobrevivência. Vimos surgir com maior intensidade no início dos anos 2000 uma série de coletivos trazendo trabalhos instigantes e provocativos, e se consolidarem no mercado fotográfico, artístico, publicitário ou em alguns deles simultaneamente, a exemplo dos coletivos brasileiros GarapaGaleria Experiência e Cia de Foto.

Esse processo caminhou a passos largos e firmes, mas levou-se um tempo para que entendêssemos porque e para que estes coletivos surgiam, como se articulavam e como lidariam com os anseios pessoais e profissionais de cada integrante, até entendermos que não havia muitas regras ou padrões, a dissolução delas era o que estava verdadeiramente em pauta. Não por acaso concomitantemente com o processo vivido pelo próprio campo fotográfico, que encarava e escancarava o poder da fotografia expandida. A linguagem fotográfica extrapolando os limites e amarras historicamente impostos, trespassando os territórios demarcados e se reconfigurando.

A expansão desses espaços de trabalho e horizontes de produção permitiu-nos incorporar outras dinâmicas onde as articulações e estruturas são mais fluídas, ambientes que permitem e promovem um amadurecimento de ideias, parcerias e propostas, diretrizes que se baseiam na coletividade como forma de criação e expressão. Avançamos nos conceitos e agora vivemos um momento muito interessante e promissor de fortalecimento e multiplicação das potencialidades criativas do trabalho coletivo e colaborativo e de espaços para atuações muito distintas. Projetos como os do Mídia Ninja e o Selva SP, por exemplo, que tem suas origens no fotojornalismo de rua e resgatam e evidenciam suas posturas críticas e ideológicas, encampadas por grupos que assumem sua vocação independente. Ou outros que enveredam pelas áreas da pesquisa e escrita a cerca dos temas que envolvem o campo da fotografia, como o Ágata, e nós mesmas do 7Fotografia.

Coletivo Selva SP

Coletivo Selva SP

Nesse mesmo viés de grupos que desempenham papéis e projetos que extrapolam os limites do fazer fotográfico enquanto produção de imagens e permite que as fronteiras de atuação dos coletivos se alarguem, destacamos o Coletivo Mexicano La Hydra.

La Hydra, criado em 2012 pelos fotógrafos Ana Casas Broda, Gabriela González Reyes y Gerardo Montiel Klint, representa um modelo da diversidade e potencial de atuação de um coletivo fotográfico, da possibilidade de construção de novos sistemas de validação e interação a partir da colaboração entre os diversos agentes.

La Hydra se define como uma plataforma para desenvolver projetos relacionados ao campo da fotografia, baseados na reflexão, diálogo e colaboração entre pessoas, associações, instituições e editoras. Com uma visão contemporânea da fotografia, buscam promover novas formas de conceber a imagem. A analogia com o ser mitológico é a representação de que as muitas cabeças que a formam – alunos, colaboradores, convidados, organizadores – geram muitas ideias e pensamentos, alimentando as atividades e os programas desenvolvidos, construindo uma plataforma onde o conhecimento não é transmitido verticalmente.

O Coletivo surgiu da percepção sobre o crescimento exponencial dos circuitos fotográficos no México, uma das maiores potências em fotografia na América Latina, um panorama fértil, mas às vezes confuso e saturado que mostra a urgência de formar autores/espectadores capazes de refletir, questionar e analisar o poder da imagem fotográfica na nossa sociedade. Os projetos e atividades desenvolvidos se articulam em torno de vários eixos, se entrecruzam para construir uma rede de atividades que se conectam entre si: oficinas, seminários, conferências, exposições, curadorias, publicações de livros e revistas, pesquisas, produção cultural, assessorias a fotógrafos, em grupo ou individualmente, promoção de atividades que estimulem o colecionismo, a exemplo do projeto Hydra + Micro Coleccionismo, e outras ações que fortaleçam a linguagem e configurem um espaço de pensamento e diálogo ativo em rede, que conecte fotógrafos e artistas a curadores, instituições, editoras e o público.

Hydra + Micro Coleccionismo

Hydra + Micro Coleccionismo

Ampliando o leque de possibilidades de parcerias e colaboração, de fomento à criação fotográfica e de ampliação das fronteiras entre os países e suas produções o coletivo La Hydra foi convidado pela organização do Festival Paraty em Foco para ser, juntamente com Eder Chiodetto (Brasil) e Liza Factor (EUA/Russia), um dos curadores da Convocatória em Foco (dividida em duas categorias: Portfólio em Foco, para ensaios fotográficos, e Multimídia em Foco, específica para projetos multimídia). Partindo das pesquisas e projetos que desenvolvem no México eles tem indicado belos, provocativos e instigantes trabalhos de autores Mexicanos e Latino-Americanos. Estimulando um  espaço que promove um circuito artístico que se estabelece no compartilhamento de experiências, propostas, linguagens, estilos, saberes, um ambiente propício à criação em rede.

O trabalho desenvolvido pelo La Hydra encontra eco em outras experiências de coletivismo também aqui no Brasil, como a da Fotoativa: “fundada em Belém do Pará, em 1984, por Miguel Chikaoka, a associação se consolidou como um núcleo de referência para o desenvolvimento de uma cultura fotográfica na região amazônica e como uma das mais atuantes e criativas organizações culturais do Brasil.” Tornou-se um importante centro de pesquisa, ensino e estímulo a fotografia, desenvolvendo uma série de atividades e ações replicadas por todo o país. Ambos são exemplos da importância da atuação em rede para uma cultura de difusão da fotografia.

E.CO 2014 – E se estamos falando sobre coletivos, vale lembrar que vem aí a edição 2014 do E.CO – Encontro de Coletivos Fotográficos, que acontecerá na cidade de Santos (SP), de 26 de agosto a 04 de setembro, no SESC Santos. Nesta edição, serão 18 coletivos convidados e mais 02 escolhidos por convocatória, em um encontro internacional, em que as atividades desenvolvidas pelos grupos presentes terminarão por formar um só corpo, que é convidado a construir uma exposição única. No encontro, diferentes modelos de formação coletiva serão discutidos, abordando temáticas e questões características deste tipo de produção criativa, e os novos desafios de atuação, interação e sobrevivência.

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