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À luz de Rinko

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Vai-se a primavera!

Lágrimas no olho do peixe.

Choram as aves.

Bashô

Illuminance | Rinko Kawauchi

Illuminance | Rinko Kawauchi

Algumas fotografias provocam um silêncio ensurdecedor nos olhos. É como se tudo ao redor ficasse estático e as batidas do coração vibrassem apenas no compasso daquelas imagens. Talvez, seja essa a grande pulsão poética do trabalho da japonesa Rinko Kawauchi. Imagens tão singelas, corriqueiras até, que desconstroem tempo e espaço e nos transportam para um lugar, ou melhor, para um sentimento difícil de adjetivar, conceituar… Apenas somos capazes de sentir, com plenitude, com entrega.

Rinko cria concepções visuais tão profundas quanto oníricas e constrói dualidades incríveis em composições preciosas. Mergulhamos em seus sonhos de águas límpidas, calmas, em apnéia. O ar falta, justamente quando nos deparamos entre a materialidade e o signo em suas imagens, como se a certeza da realidade e toda a sua fragilidade se desfizesse em metáforas, em versos, como em um haikai.

Illuminance | Rinko Kkawauchi

Illuminance | Rinko Kkawauchi

A sua subjetividade parece estar fundada na idéia da transformação das coisas, na impermanência da vida e sua relação com a memória, o tempo e o inconsciente. Rinko captura fragmentos da realidade, da natureza que a cerca, do simples, mas não do direto, como podemos ver tão bem em seu trabalho e também no tumblr, um espaço que ela chama de diário, nos mostrando, mais uma vez, a magia de transformar o trivial em algo luminoso. Um repertório imagético bastante amplo e de uma delicadeza plena, quase como um dialogo, uma conversa, um sussurro, com o expectador. Difícil não se deixar envolver completamente em seus devaneios.

Illuminance | Rinko Kawauchi

Illuminance | Rinko Kawauchi

Em uma entrevista para o blog japonês Pingmag, Rinko fala um pouco da bela relação com a fotografia e sua forma de olhar o mundo:

As pessoas costumam dizer que eu tenho olhos de uma criança. Por exemplo, quando eu olho para as formigas recolhendo grãos de açúcar, ou quando eu procuro abrigo da chuva e contemplo caracóis. Estas são coisas que muitas vezes você faz quando você é uma criança não são? Eu tenho uma sensibilidade muito semelhante à delas.

Eu prefiro ouvir as pequenas vozes em nosso mundo, aqueles que sussurram. Tenho a sensação de que estou sempre sendo salva por esses sussurros, meus olhos se concentrem naturalmente em pequenas coisas. Mesmo quando eu ando por Shibuya (bairro de Tóquio), vejo-me correndo em direção as flores. Eu encontro conforto nelas. Acho que isso é uma sensibilidade muito normal, ao contrário do que as pessoas possam pensar. Mas é claro que o mundo em que vivemos não é só feito de grama que cresce à beira da estrada, é composto por muitas e muitas outras elemetos e então eu também tiro fotos de muitas outras coisas. Apenas falar de flores não é interessante. Eu experimento o mundo com um sentimento de equilíbrio e eu acho que isso se mostra em minhas obras.

Um trabalho consistente, rico, que fez de Rinko Kawauchi o principal nome da fotografia contemporânea japonesa. Seu cuidado com as imagens não se resumem ao ato fotográfico, os fotolivros de Rinko demonstram todo o zelo e carinho que ela tem pelos seus ensaios e suas ideias. São 16 livros publicados, com destaque para “UTATANE”, “HANABI eHANAKO” (Little More), “AILA” (FOIL, 2004), “the eyes, the ears” e “Cui Cui” (FOIL, 2005) e “Illuminance” (lançado simultaneamente em 2011 por 5 editoras ao redor do mundo), minuciosamente e delicadamente editados e diagramados. Um preciosismo que lhe rendeu diversos prêmios e reconhecimento por todo o mundo.

E depois de 7 anos, Rinko volta ao Brasil trazendo sua poesia para o Paraty em Foco e ministra o workshop Illuminance – Sob a luz eclipsada, que visa, entre outras questões, proporcionar aos participantes o encontro com vocabulário necessário para articular suas intenções por trás de seus trabalhos, as habilidades para edição e apresentação eficaz de um ensaio. Sem dúvida, será um momento inesquecível para o festival e para todos que se permitam tocar por sua fotografia. Uma oportunidade única de conhecer sua trajetória, ouvir suas histórias e seus processos criativos, entrar em seu mundo e se deixar levar pela sensação de ausência de tempo, onde tudo parece tão quieto e pacífico. Pois, como ela mesmo define, o tempo não é importante, é simplesmente um conceito criado pelo homem para dar a vida um senso de estrutura e não tem significado real do universo.

UTATANE | Rinko Kawauchi

UTATANE | Rinko Kawauchi

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